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O pai de todos...

20.5.05


Bill Condon é provavelmente um dos maiores talentos surgidos no cinema nas últimas décadas. O diretor/roteirista americano começou sua carreira na TV e sua primeira incursão no cinema como diretor foi em Candyman II. Quem diria que, anos depois, aquele sujeito que dirigira uma seqüência de um filme de terror iria presentear as platéias com uma das melhores cinebiografias? Deuses e Monstros, a vida do diretor dos clássicos Frankenstein e A Noiva de Frankenstein, James Whale, rendeu a Condon o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, além de indicações a Melhor Ator para Ian McKellen (que absurdamente foi parar nas mãos de Roberto Benigni num surto da Academia) e de Melhor Atriz Coadjuvante para Lynn Redgrave.

Cinco anos depois Condon adaptou para as telas o musical da Broadway Chicago. Certamente o seu roteiro foi um dos elementos-chave para tornar o filme perfeito do jeito que é. Ele conseguiu achar soluções que transpusessem a peça para o cinema sem torná-la enfadonha ou que parecesse teatro-filmado. Para conferir a genialidade da adaptação, mesmo para quem não teve (como eu) o prazer de ver Chicago no teatro, basta pegar o DVD e (re)ver o filme com os comentários do roteirista com o diretor Rob Marshall (aliás, esta é uma das grandes vantagens do DVD e que poucos usuários aproveitam).

No ano passado Condon mais uma vez se aventurou pela biografia com Kinsey, que ficou conhecido também como Vamos Falar de Sexo embora esse não seja um subtítulo e sim a tagline, o slogan promocional do poster do filme.

Albert Kinsey era um entomologista que, por percalços do destino, acabou se enveredando pelo mundo do estudo da sexualidade no século XX. Em 1948 ele lançou uma verdadeira bomba literária, Sexual Behavior in the Human Male, ou Comportamento Sexual no Macho Humano. Como era de se esperar, o livro foi um escandaloso sucesso e mostrou explicitamente o que todo mundo já sabia mas tinha medo de demonstrar: o sexo era praticado das mais diversas formas pelos americanos até então escondidos sob o manto dos "certinhos". Olha a tal da hipocrisia aí... Só que Kinsey queria ir além em suas pesquisas e já havia planejado outros livros sobre o assunto.

Não vale a pena falar muita coisa sobre a história do filme. Como toda biografia bem contada, o que vale é se surpreender com os acontecimentos na tela. E Condon soube conduzir de forma sensível sem ser piegas, sútil sem ser covarde, direto sem ser explícito... enfim, genial como sempre! Se Closer espantou muita gente pela sinceridade de seus diálogos, Kinsey segue a mesma linha e vai além! Mas não há gratuidade em suas cenas, todas se encaixam no contexto e o filme se torna um belo retrato da vida de um homem que nasceu com algumas décadas de antecedência (me pergunto se ele não seria ainda hoje considerado controverso).

Bill Condon conta com um elenco primoroso para dar vida a seus personagens. Liam Neeson se entrega de corpo e alma ao professor, numa interpretação corajosa e infelizmente pouco reconhecida. Laura Linney, como sua esposa, também está perfeita no papel, tendo até recebido uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante neste ano (embora eu ainda ache que ele deveria ter ido para as mãos da Natalie Portman*). O restante do elenco também está corretíssimo, com Chris O'Donnell, Peter Sarsgaard e Timothy Hutton como os auxiliares de Kinsey em suas pesquisas. Eu destacaria especialmente dois atores que não foram creditados na abertura do filme mas que deram vida a seus personagens com interpretações memoráveis: primeiro o John Lithgow, que faz o pai autoritário e conservador de Kinsey, numa composição especialmente marcante, revoltante e sensível (papel que poderia muito bem ter lhe rendido uma indicação para Melhor Ator Coadjuvante); depois a Lynn Redgrave como uma das entrevistadas de Kinsey.

A parte técnica do filme também é bastante caprichada. Logo no início notamos a sutileza de Condon, mostrando planos-detalhe que dizem muito do comportamento humano. Ele também utiliza inteligentemente alguns recursos visuais que lembram filmes da época em determinadas cenas e, nas partes em que o sexo deve ser mostrado, a estética usada não é agressiva e nem apelativa. A trilha sonora de Carter Burwell (o mesmo dos filmes dos irmãos Coen) é como sempre marcante e pontua as cenas belissimamente. Não posso deixar também de mencionar a fotografia e a montagem.

Um grande filme, sem dúvida alguma. Não "mexeu" comigo como Closer, mas deu o que pensar (e também rende várias discussões e conversas), além de ser um raro exemplar de cinema adulto e corajoso. E, ao final da projeção (os créditos finais guardam uma "surpresinha"), pude constatar, com alguns comentários e feições dos outros espectadores que estavam na mesma sessão, que o sexo continua sendo um tabu até hoje. Não que eu concorde em 100% com as atitudes e ideais de Kinsey e seus "seguidores" (assumo ser meio "exclusivista"), mas que ele é uma figura admirável isso ninguém pode negar!