O TERMINAL
O cineasta mais bem sucedido de Hollywood, Steven Spielberg, se reúne mais uma vez a Tom Hanks para contar uma história bastante simples (que tem como um dos roteiristas o grande Andrew Niccol de
Gattaca e
O Show de Truman)e que acabou decepcionando nas bilheterias. Assistindo somente agora a
O Terminal pude constatar alguns motivos para o relativo fracasso do filme (lembrem-se: isso é a minha opinião... Podem discordar à vontade, mas foi assim que percebi):
1- o público em geral, e o americano em particular, encontra uma enorme resistência em aceitar filmes que mostrem algumas verdades. Mesmo que as histórias sejam fictícias, a maioria das pessoas que freqüentam cinemas está em busca de uma válvula de escape da realidade. Neste caso, apesar de mostrar alguns personagens secundários e figurantes representando pessoas de diversas nacionalidades, os maiores vilões do filme são os norte-americanos que, em sua prepotente ¿batalha pela manutenção do
american way of life¿, oprimem os estrangeiros relegando-os à marginalidade.
O Terminal mostra o lado xenófobo dos Estados Unidos, uma ignorância tremenda diante do mundo em que vivemos, quando a globalização torna outras culturas e costumes muito mais acessíveis do que há poucas décadas;
2- Spielberg se tornou famoso por trazer de volta a magia ao cinema. Tornou-se o símbolo maior de uma geração de cineastas surgida na década de 70, que rompeu as barreiras da fantasia e deu ao mundo obras recheadas de efeitos especiais e histórias cheias de ação e emoção, como
Tubarão,
Contatos Imediatos do Terceiro Grau,
Caçadores da Arca Perdida e
E.T.. Na década de 80, já com uma carreira consolidada e uma polpuda conta bancária, ele inaugurou sua produtora, a Amblin Entertainment, para que através dela pudesse financiar filmes que ele gostaria de ver mas não tinha tempo de dirigir. Graças a ele e seus afilhados desta época, o público assistiu
Gremlins,
De Volta Para o Futuro,
Os Goonies e tantos outros campeões de bilheteria. Já na década de 90, mais rico ainda, ele se deu ao luxo de abrir seu próprio estúdio, a Dreamworks SKG, junto aos sócios Jeffrey Katzemberg e George Geffen, de onde saíram obras como
Beleza Americana,
Gladiador e os seus próprios
Minority Report,
Prenda-me Se For Capaz e
O Terminal. Só que, desde o maravilhoso
A Cor Púrpura, Spielberg tenta perder um pouco do estigma de ¿papa do filme fantástico¿. Depois da saga da negra Celie (estréia no cinema da comediante Whoopie Goldberg), Spielberg fez os dramas
O Império do Sol,
Além da Eternidade,
A Lista de Schindler e
O Resgate do Soldado Ryan, conseguindo reconhecimento do público e da crítica (e também da Academia) como ¿realizador sério¿, porém nem sempre satisfazendo a todos. Eu ousaria dizer que este O Terminal é fruto de uma safra light do cineasta, onde ele abre mão de história que envolvam cenas grandiosas e efeitos especiais, dando maior valor às personagens e à trama, mas ainda assim caprichando na parte técnica. Portanto, fora do ¿padrão Spielberg de fantasia¿.
O Terminal conta a história de Viktor Narvosky, que saiu de seu país no leste europeu (fictício) para visitar os Estados Unidos e conseguir realizar um sonho (o qual não vale a pena comentar). Basta dizer que ele não vai para o país em busca de uma nova vida, não enxerga os Estados Unidos como a ¿terra prometida¿ (seria esse mais um motivo para a rejeição do filme pelos americanos?), terra das oportunidades e realizações. Ao chegar ao aeroporto J.F.K. ele, que não fala ou entende nada de inglês sem a ajuda de um dicionário/guia para turistas, Viktor é informado que, durante o vôo, seu país sofrera um golpe militar e, por causa disso, ele terá que ficar retido no local, impedido de entrar na terra do Tio Sam. E assim o tempo passa, Viktor tem que aprender a se virar para sobreviver, conhece funcionários do aeroporto, surge um interesse romântico (Catherine Zeta-Jones interpretando uma aeromoça)... Uma história bem simplesinha mas muito bem contada e com o apuro técnico habitual de Spielberg. Tom Hanks é um dos melhores atores em atividade hoje em dia e defende seu papel com a simpatia e competência de sempre. O filme ainda tem a coragem de terminar de forma inesperada, não que seja infeliz, mas que foge um pouco dos padrões hollywoodianos (ainda que siga o estilo lacrimoso de Spielberg). Se mostrou uma obra sensível e simpática. Não um grande filme, daqueles que ficarão para sempre em sua memória, mas que proporcionarão momentos de prazer.
Só para complementar: não sei se é muita viagem desta cabecinha aqui, mas enxerguei alguns paralelos entre a história de Viktor no aeroporto e a do próprio Steven Spielberg. Esse, quando ainda jovem, no final da década de 60, foi a uma excursão nos estúdios da Universal e lá encontrou uma sala vazia. Como sempre sonhou em trabalhar com cinema, o que ele fez: pegou uma placa, escreveu seu nome nela e pregou-a na porta, tomando posse da sala como seu escritório e, por algum tempo, se fez passar como um funcionário do estúdio até conseguir sua primeira oportunidade.
BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS
Que o Jim Carrey é um ótimo ator eu já sabia desde o surpreendente
O Show de Truman e o chocante
O Mundo de Andy, onde ele teve a oportunidade de mostrar que não era apenas mais um rosto careteiro em comédias acéfalas.
E também já sabia que, vindo da mente do roteirista Charlie Kaufman (o mesmo do incrível
Quero Ser John Malkovich e do legal porém superestimado
Adaptção), não poderia esperar algo que se encaixasse nos padrões do mainstream hollywoodiano.
Infelizmente só pude ver agora em DVD, perdi no cinema, mas garanto:
Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças é, desde já, um dos "filmes da minha vida"!!! Foi o segundo filme neste ano que conseguiu mexer profundamente comigo. Coincidentemente, assim como o primeiro,
Closer, este também fala de relacionamentos. Falar alguma coisa "a mais" a respeito da trama seria estragar as surpresas do filme. A história de Joel Barish e seu romance com Clementine Kruczynski é genialmente conduzida pelo francês Michel Gondry. O roteiro brilhante de Kaufman toca fundo na "facilidade" que as pessoas têm de "deletarem" outras pessoas de suas vidas, de forma irônica, às vezes até aparentemente absurda, mas absolutamente sensível e verdadeira.
O elenco é mais do que perfeito. Como citado pelos atores numa entrevista contida no DVD, há uma inversão de papéis: Jim Carrey, no auge de sua maturidade como ator, tem uma atuação na medida exata de sua personagem, contida e dramática; Kate Winslet, habituada a viver mocinhas em filmes de época, dá vida e energia a uma espevitada Clementine, numa interpretação em que percebemos a atriz muito à vontade e até mesmo com uma espontaneidade que nos deixa dúvida se haveria outra capaz de fazer o papel (merecidamente ela foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz neste ano pelo filme). O elenco coadjuvante também não deixa a desejar. A direção de Gondry é um espetáculo visual... Oriundo dos vídeo-clips, ele aplica uma linguagem onírica e única, registrando-nos seqüências inesquecíveis que brincam com o tempo e o espaço.
Outro destaque do filme é a sua trilha sonora. A parte instrumental, composta pelo talento em ascensão Jon Brion (o mesmo de Magnólia) é uma das coisas mais impressionantes que já ouvi num filme. Numa deliciosa brincadeira musical, ele compôs temas que parecem ser executados de trás para frente! Absolutamente genial!!! Já a parte de canções (não compostas para o filme) também é fantástica. O diretor utiliza durante o filme somente canções com a palavra
SUN em suas letras (recurso que não é inédito - John Landis já havia feito o mesmo em seu
Um Lobisomem Americano em Londres colocando músicas com a palavra
MOON), o que dá um charme a mais ao filme. E o que é a versão de Beck para
"Everybody's Gotta Learn Sometimes"?!?!? MARAVILHOSA releitura de um clássico, inesquecível no filme e tocante ao final dele...
Ao final é impossível conter as lágrimas... Surpreendentemente, a Academia decidiu premiar o filme com o merecido Oscar de Melhor Roteiro Original, prova de que houve o reconhecimento de que é possível sim ainda se contar histórias de amor de forma sensível, ousada e original.