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O pai de todos...

27.9.04


A DANÇA DOS VAMPIROS

Na década de 80, aqui no Brasil, o cineasta Ivan Cardoso foi considerado o pai do "terrir", um gênero que mesclava outros dois, o terror e a comédia. O que o povo se esqueceu é que ele não foi o primeiro a unir os dois estilos. Em 1967 Roman Polanski dirigiu A Dança dos Vampiros, no qual também estrelou (embora sua participação curiosamente não seja creditada na abertura e no final do filme). O filme foi fracasso nos Estados Unidos, mas se tornou cult tanto na Europa quanto por aqui (sinal de que brasileiro gosta mesmo deste tipo de filme). Pode não ser a comédia mais engraçada do mundo, mas é muito divertido... e assustador também.

Até hoje me lembro da primeira vez em que a Globo exibiu o filme, lá pelo início da década de 80. Eu, então com meus 9 anos de idade, senti bastante medo e aflição e não consegui "captar" o espírito cômico da obra e só conseguia sentir medo. Ainda assim, de certa forma, o filme me atraiu muito e eu o revia toda vez em que era reprisado. E só depois, com o passar dos anos, é que pude perceber a graça do filme e me tornei fã de vez.

A história: o professor Abronsius e seu assistente Alfred vão à Transilvânia em busca da comprovação da existência de vampiros. Hospedados numa pensão, eles suspeitam que estão bem próximos de seu objetivo vendo centenas de alhos pendurados pelo lugar. Os moradores da região se recusam a falar daquilo que tanto temem. A visita do corcunda Koukol à estalagem para buscar compras acaba por levá-los ao castelo do Conde von Krolock, onde se certificam que as criaturas sugadores de sangue realmente existem.

A graça do filme já começa em seu título original: The Fearless Vampire Killers or: Pardon Me, But Your Teeth Are in My Neck (Os Destemidos Matadores de Vampiros ou: Perdão, Mas Seus Dentes Estão Em Meu Pescoço). E havia também na TV um pequeno prólogo em desenho animado, fato que eu só vim a descobrir há pouco tempo, na edição em DVD, se tratar de um recurso colocado depois de seu lançamento nos cinemas na esperança de que o filme ganhasse maior visibilidade (vai ver que foi por causa desse recurso que eu tenha adorado tanto o filme quando criança). A figura do professor é outra coisa marcante, uma mistura de Einstein com Chaplin; Polanski como Alfred também é hilariante com suas caretas e sua interpretação quase silenciosa. A lindíssima esposa do diretor na época, Sharon Tate, aparece como uma das vítimas do Conde e interesse amoroso de Alfred. Vale ainda destacar a trilha sonora e a direção de arte, além da fotografia.

Infelizmente, 2 anos após o lançamento de A Dança dos Vampiros, Sharon Tate foi assassinada brutalmente por satanistas. Ela estava esperando um filho de Polanski. Foi um fim trágico para uma bela jovem que prometia ter sucesso em sua carreira cinematográfica. Não tanto pelo talento (neste filme pelo menos ela pouco tem a fazer), mas sim pela luminosa beleza e charme, que tomam conta da tela a cada aparição da atriz e ajudam a fazer de A Dança dos Vampiros um filme que ficará pra sempre em nossas memórias, sejam elas as mais horripilantes quanto as mais divertidas.

P.S.: de vez em quando revejo o filme e penso que, já que fazem tantos remakes por aí, porque não refilmar A Dança ..., com umas melhorias de roteiro e um bom aproveitamento da tecnologia atual? Seria uma grande idéia, ainda mais se acertassem no tom de humor e suspense e na escolha de um bom elenco, preservando a essência do original.

Conde Von Krolock: A year ago exactly on this same night we were assembled here in this very room: I your pastor, and you my beloved flock. With hopefulness in my heart I told you then that with Lucifer's aid we might look forward to a more succulent occasion. Cast back your minds. There we were, gathered together, gloomy and despondent, around a single meager woodcutter.

16.9.04


CONTATO

Robert Zemeckis é um cara muito legal! Desde o início de sua carreira (quando teve seus primeiros filmes, Febre de Juventude e Carros Usados, produzidos pelo Spielberg), ele deu demonstrações de que tinha um bom domínio de cena. Eu sou fã confesso dele, acho um dos poucos que conseguem aliar com maestria a tecnologia dos efeitos visuais (analisem a sua filmografia e vejam que o cara é um dos maiores responsáveis pelo alto nível técnico dos efeitos hoje em dia) com a emoção retirada de seus atores e roteiros. Ao longo do tempo pretendo falar de alguns do filmes dele aqui, já que gosto de quase todos (pra quem não leu, tem um post sobre A Morte Lhe Cai Bem lá pra trás...). Agora chegou a vez de um que é, ao meu ver, uma das maiores obras de ficção do cinema: Contato.

Baseado num livro do Carl Sagan (aquele simpático senhor que apresentava a série Cosmos), Contato conta a história de Ellie Arroway, uma astrônoma que dedica a vida à pesquisa de sinais que possam comprovar a existência de culturas extra-terrestres. Quando consegue finalmente captar algo que possa comprovar a existência de vida alienígena, Ellie conta somente com o apoio de alguns assistentes e pessoas que a apoiam, enfrentando interesses políticos. Incansável, ela não desiste e tenta a todo custo decifrar o significado dos sinais.

O filme é empolgante, emocionante, brilhante! Jodie Foster como a cientista tem uma de suas melhores interpretações e carrega praticamente o filme todo nas costas, já que a sua personagem é o centro da história. Zemeckis tem o bom senso de não ofuscar a sua atriz com os efeitos: tudo está lá para apoiar, complementar a trama, e não obter um destaque maior do que a personagem. E, desde o primeiro frame, o diretor mostra que sabe como poucos encantar os olhos dos espectadores. A abertura do filme, uma viagem espacial a partir da Terra, é uma das coisas mais impressionantes que eu já vi no cinema. Só quem tem um home-theatre pode desfrutar de experiência semelhante: assistir a viagem do início do filme, com todos aqueles sons referenciais (músicas, discursos) da passagem do tempo na Terra saindo por vários canais distintos de som, te envolvem e encantam, fazendo-o praticamente mergulhar de cabeça no universo criado por Sagan. Sem comentar os "efeitos invisíveis", aqueles que estão no filme mas a gente nem percebe. Zemeckis é capaz de takes maravilhosos e surpreendentes, que desafiam a lógica e as leis da física, graças aos efeitos que ninguém nota (como por exemplo a cena em que a pequena Ellie corre até um armário de banheiro para pegar um remédio para seu pai). Quem gosta de prestar atenção nesses detalhes fica de queixo caído.

Me lembro de escutar muita gente criticando o filme, principalmente aqueles que cismavam em compará-lo a 2001. Discordo. Acho o filme formidável, com uma temática até semelhante, mas com um propósito bem diferente da obra de Kubrick. Acho que ficou bem claro que a intenção de Zemeckis nunca foi a de fazer algo comparável a 2001. Sua proposta era contar a história de uma pessoa obstinada que busca provas que possam certificar suas convicções; de uma pessoa que viveu por um sonho e se depara com obstáculos que dificultem sua realização; de ciência e de fé. E, para nossa sorte, o resultado é bastante positivo.

Alien: You're an interesting species, an interesting mix. You're capable of such beautiful dreams and such horrible nightmares. You feel so lost, so cut off, so alone, only you're not. See, in all our searching, the only thing we've found that makes the emptiness bearable is each other.


4.9.04


O URSO

O francês Jean-Jacques Annaud dirigiu O Urso, adaptação de um romance norte-americano. Quando passou por aqui em 89 eu perdi nos cinemas, e vi somente anos depois quando foi lançado em vídeo. Meu Deus, que arrependimento de não ter "levado fé" nesse filme... Me lembro como se fosse ontem de quando o assisti, numa virada de ano da década passada (não me recordo exatamente de que ano), na casa de amigos. Quando o filme terminou eu estava completamente anestesiado, emocionado com aquela história tão... humana! Como assim humana? Um filme em que os protagonistas são dois ursos não pode ter uma história dita humana... ou pode? Nesse caso sim. Na verdade, acho que O Urso me impressionou muito justamente por demonstrar que animais ditos irracionais podem muito bem ter comportamentos e atitudes mais humanas do que os próprios homens são capazes de ter (pelo menos uma boa parte de nós).

Como em A Guerra do Fogo, Annaud conta a história com um mínimo de diálogos (ao contrário de Babe, neste os animais não falam), a não ser pelas esporádicas aparições de caçadores, mas 90% do filme é praticamente sem falas. Um pequeno filhote de urso fica orfão (numa das cenas mais chocantes que já vi, supera até mesmo a da mãe do Bambi) e, para que não seja capturado por caçadores, se junta a um urso adulto na esperança de que este o proteja. Historinha simples, não? Na verdade, os machos adultos COMEM os filhotes sempre que podem. Esse aqui não devora o pequenino, mas a princípio o despreza, é grosseiro, e só aos poucos vai se afeiçoando e se torna um amigo, um "pai adotivo".

As grandes estrelas do filme são os dois ursos. O adulto era uma celebridade do cinema: Bart. Ele nasceu em 1977 e começou sua carreira nas telas aos 3 anos de idade. Devido à sua tranqüilidade nos sets de filmagem e "versatilidade", ele estrelou diversos filmes nos anos seguintes, até sua morte em 2000. Só pra citar, Bart esteve também em Lendas da Paixão (ao lado de Brad Pitt) e No Limite (contracenando com Anthony Hopkins e Alec Baldwin). Para estrelar O Urso, Bart ficou durante um bom tempo antes das filmagens convivendo com um ursinho de pelúcia parecido com o filhote real para que pudesse contracenar pacificamente com ele e não colocar sua vida em risco. O filhotinho só fez este filme mesmo, e é tão "fofo" que dá vontade de levar pra casa. Impossível não sentir pena dele, não sofrer junto, não torcer pelo pequenino. É admirável o trabalho dos treinadores.

Os responsáveis por essa empatia que o público tem de cara com os animais são Annaud e o roteirista Gérard Brach, colaborador habitual de Polanski. Os bichos se comportam como bichos de verdade, mas a identificação com eles é imediata e logo estamos nos sentindo em seus lugares, na esperança de que tudo fique bem com os dois. Essa identificação é causada talvez pelo fato de vermos o filhote tendo sonhos, procurando carinho e proteção, atitudes consideradas humanas; talvez pelo remorso de sabermos que a destruição da fauna e flora continua e que infelizmente pouco se faz para a sua preservação; ou ainda talvez pelo fato de percebermos que, diante de um exemplo tão bonito de "humanismo" dado pelos animais, a cada dia que passa fica mais difícil encrontrar bichos-homens com boa-vontade para ajudar o próximo...

1.9.04
Só pra constar...

Gente... Vocês se lembram do meu post sobre Um Sonho de Liberdade, onde eu disse que o filme tem sido considerado, com o passar dos anos, um clássico? Pois então, acabei de ver no IMDb que ele vai ser relançado nos cinemas americanos em 17 de setembro e na Inglaterra uma semana depois. Se houve alguma alteração, remasterização, se é uma "Director's Cut"... isso eu já não sei. Acredito que seja em comemoração aos 10 anos de lançamento do filme. De qualquer forma, isso confirma aquilo que eu disse sobre o filme ter "arrebanhado" mais admiradores com o tempo e só nos resta torcer pra que ele seja também exibido aqui novamente nos cinemas para que mais pessoas possam conhecer e se emocionar com esta obra-prima!



O SEGREDO DE MARY REILLY

É sempre assim... Muitos filmes que a crítica adora malhar e muitas vezes acabam entrando nas listas dos piores do ano acabam por conquistar minha simpatia de alguma forma. É o caso deste, O Segredo de Mary Reilly. O filme demorou algum tempo até que o estúdio decidisse lançá-lo, já que exibições-teste (e americanos ADORAM e levam muito em conta essas exibições) não agradaram aos que o viram. Depois de mudanças, adiamentos, mais mudanças, mais adiamentos, finalmente o filme chegou às telas e... continuou não agradando ninguém. Ou quase ninguém.

Achei a premissa ótima: a clássica história do Dr. Jeckyll e de sua "outra" personalidade maligna, o Mr. Hyde, desta vez contada através do ponto de vista de sua empregada, Mary Reilly. Não li o romance de Valerie Martin e não posso julgar se a adaptação foi fiel ou não, mas tendo lido o clássico livro de Robert Louis Stevenson e sendo grande admirador da obra, acabei gostando bastante do filme.

A história é velha conhecida de todos: o Dr. Henry Jeckyll é um médico solitário que vive em sua mansão somente com seus criados. No seu quadro de empregados está Mary Reilly, jovem de passado sofrido que nutre uma paixãozinha pelo médico. As coisas começam a se complicar um pouco quando Jeckyll ordena que seus criados dêem livre acesso a um amigo em sua casa, o Dr. Hyde. Intrigada, Mary Reilly fica bisbilhotando a sinistra figura que aparece de vez em quando sempre envolto em mistério, e acaba se apaixonando por ele também. Ao mesmo tempo, alguns assassinatos ocorrem em Londres e a polícia investiga os crimes.

Basicamente, O Médico e o Monstro fala da personalidade dúbia do ser humano. E O Segredo de Mary Reilly se torna interessante por mostrar que tanto o lado bom quanto o mau das pessoas são capazes de despertar interesse e paixão nos outros. É um triângulo amoroso envolvendo duas pessoas! A produção é super bem cuidada, com o clima soturno da Inglaterra vitoriana bem retratado nos cenários, figurinos e fotografia. O diretor Stephen Frears trabalha mais uma vez com dois dos atores de Ligações Perigosas, John Malkovich como Jeckyll/Hyde e Glenn Close como uma cafetina (talvez o ponto mais fraco do filme, ela está caricata e over demais. Eu a achei péssima e ri muito dela no cinema) e com o mesmo roteirista. Como Mary Reilly, Julia Roberts me surpreendeu. Não pela interpretação (que também foi muito criticada na época, mas até que eu acho correta), mas sim pela coragem de desfazer a imagem da "linda mulher" e se mostrar desglamourizada, sem maquiagem, feia mesmo. Dá pra perceber que aquela boca gigantesca sem um batom estraga um pouquinho o rosto dela...

Apesar de todas as críticas negativas, O Segredo de Mary Reilly é um filme interessante e que merece ser visto, não só pelas suas qualidades técnicas, quanto também por explorar tão bem e de forma tão interessante a dualidade humana. Além de fazer uma nova leitura de um grande clássico da literatura.

Dr. Henry Jekyll: I have become what I always wanted to be. I am the knife as well as the wound.