DESAPARECIDO - UM GRANDE MISTÉRIO
Neste fim de semana eu assisti a
refilmagem de
12 Homens e Uma Sentença. Foi ótimo por dois motivos: o primeiro é que pude constatar que nem sempre o meu preconceito contra os filmes produzidos diretamente para a TV procede. Este conta com um brilhante elenco, roteiro e direção precisos, um excelente programa. Segundo por me fazer relembrar o trabalho de um dos maiores atores do cinema,
Jack Lemmon. Sempre admirei
Lemmon, tanto em comédias quanto em dramas. E depois de ver essa versão de
12 Homens e Uma Sentença eu imediatamente me lembrei de outro filme marcante estrelado por
Lemmon:
Desaparecido - Um Grande Mistério, ou simplesmente
Missing, como no original (e como todos preferem chamar até hoje).
Num país latino-americano dominado pela ditadura militar (o nome não é mencionado, mas é quase óbvio que se trata do Chile) um jovem jornalista norte-americano desaparece sem deixar rastros. Sua esposa, também norte-americana e tão engajada politicamente quanto ele, pede socorro ao sogro, um conservador que acredita piamente na boa-vontade, generosidade e transparência do governo estaduinense. A investigação dos dois os leva a um caminho inesperado, onde há segredos muito maiores do que eles poderiam imaginar e à constatação de que por trás do desaparecimento de Charlie há um truncado jogo político envolvendo os dois países.
Dirigido em 1982 (como já falei neste
blog, um ano abençoadíssimo para o cinema) pelo cineasta grego (e altamente engajado na política)
Costa-Gavras,
Missing não teria metade da sua força se não fosse pela presença de
Jack Lemmon no papel de Ed Horman, o pai de Charlie, e de
Sissy Spacek como Beth, esposa do jornalista. A história, que pode até parecer banal para nós que saímos há pouquíssimo tempo de um regime ditatorial terrível, se torna um crescente de emoções, tanto tensas quanto comoventes, graças aos dois protagonistas e à forma como a sua investigação é conduzida. A dignidade e entrega dos dois atores aos personagens nos faz sentir a dor e revolta que eles vivem a cada passo que dão na busca por Charlie. Vale mencionar também a linda trilha sonora do também grego
Vangelis, de vez em quando citada por aí.
Apesar de ter mais de 20 anos,
Missing continua atual e contundente. Vendo (ou revendo) hoje em dia dá pra se certificar que as colaborações e intervenções do governo norte-americano que ocorrem ainda hoje pelo mundo já deveriam ter levado um fim há muito tempo. Às vésperas da próxima eleição presidencial, seria ótimo que nossos amigos lá de cima assistissem filmes como esse e tantos outros (como os do
Michael Moore) que têm a coragem de mostrar o lado podre e oculto (nem tanto) da benevolência do Tio Sam para com seus primos menos favorecidos.
P.S.: vale lembrar um fato inédito e bonito que aconteceu. Na premiação do Globo de Ouro de 1998,
Jack Lemmon foi indicado ao prêmio na categoria Melhor Ator por Filme ou Série de TV Dramática. O vencedor no entanto foi
Ving Rhames pelo papel-título em
Don King (aquele empresário do Mike Tyson que tem o cabelo todo espetado). Quando subiu ao placo para receber o prêmio,
Ving disse que não era merecedor de tal honra e chamou
Lemmon. O veterano ator juntou-se ao premiado e levou um susto quando
Ving ofereceu o Globo de Ouro a ele, dizendo que aquele sim era o ator que merecia ser reverenciado. Visivelmente transtornado e emocionado,
Jack a princípio recusou, mas depois de muita insistência do vencedor, aceitou o prêmio. Uma bela homenagem a um grande ator.
CINZAS NO PARAÍSO
É possível encontrar beleza e poesia na miséria e desgraça das pessoas? No cinema é sim! Não que eu seja um entusiasta da tão comentada "estética da fome" alardeada por aí. Não sou fã de muitos dos filmes que mostram, às vezes em tom sádico e carregado, a degradação de pessoas. Mas uma boa história que aborde o tema, contada de forma inteligente e realmente artística, é irresistível. É o caso de
Cinzas no Paraíso, filme de 1978 dirigido por
Terrence Malick.
Estados Unidos, 1916. O jovem casal Bill e Abby, junto com Linda, a irmã mais nova do rapaz, saem de Chicago e vão para uma fazenda no Texas na esperança de conseguirem melhores condições de vida. O casal esconde seu romance e se faz passar como irmãos para as demais pessoas. Com o fim da colheita, o jovem fazendeiro dono das terras convida os três lavradores a permanecerem no local e logo se declara apaixonado por Abby. Em pouco tempo Bill descobre, acidentalmente, que o fazendeiro sofre de uma doença que o levará a morte em poucos meses, e então convence Abby a aceitar se casar com ele para que ela possa herdar as terras e lhes garantir seu futuro. O que Bill não imaginava era o turbilhão de conflitos internos que a espera pela morte do fazendeiro iria trazer à tona.
Uma história simples, mas contada de forma única e, acredito eu, jamais igualada no cinema. Apesar de ter uma trama já lida e vista algumas vezes antes e depois,
Cinzas no Paraíso é um raro exemplar. Simplicidade, neste caso, não significa previsibilidade e nem tampouco falta de originalidade e incompetência. O diretor e roteirista
Malick, então em seu segundo filme, conseguiu com este chamar a atenção da crítica e de um público seleto que o alçou ao status de gênio da estética e da reflexão. Somente depois de 20 anos lançou seu terceiro filme,
Além da Linha Vermelha, e foi consolidada a sua carreira também como um cineasta
outsider e bissexto, lembrando um pouco
Stanley Kubrick.
Ele pode ser considerado realmente um excêntrico se levarmos em conta os demais cineastas americanos.
Malick é uma excessão, tem seu estilo próprio, trabalha quase como um
"auteur" europeu, tira muito mais proveito dos planos longos e reflexivos, utilizando todos os elementos possíveis para dar densidade ao filme, seja no trabalho dos atores, na música, na trilha sonora, nos cenários, nos silêncios...
A fotografia de
Néstor Almendros é algo de cair o queixo.
Almendros utilizou uma das técnicas mais difíceis do cinema, que geralmente tornam insatisfatórias a captação de luz e o registro em película: ele rodou o filme quase todo no horário entre o fim da tarde e o início da noite, capturando assim uma luz única, mágica, envolvente, bela e poética, intimista e ao mesmo tempo abrangente no que se refere à ambientação.
Cinzas no Paraíso é um daqueles filmes em que cada fotograma daria um lindíssimo quadro pronto para ser emoldurado. Não foi à toa que ele ganhou quase todos os prêmio de fotografia do ano, inclusive o Oscar.
O roteiro é também algo raro no cinema americano, com poucos diálogos, uma narração em off (da menina Linda) esporádica e sempre breve (sem ser meramente explicativa das cenas), onde até mesmo um dos personagens centrais não tem seu nome mencionado um minuto sequer (o fazendeiro) e é valorizado pela direção.
Terrence Malick sustenta sua história no carinho e cuidado com que trata seus personagens, na forma como os filma e dirige seus atores. Não abre mão daquele silêncio que fala muito mais que algumas linhas de diálogo. Assim como em
Além da Linha Vermelha, ele torna o ambiente um outro personagem que tem importância na história. Não entrega tudo mastigadinho aos espectadores mas também não transforma seu filme em uma obra de difícil acesso. Tem um ritmo mais lento mas não o deixa monótono. Nos transporta àquela época com extrema sensibilidade e cuidado estético sem abrir mão do clima árido e isolado necessários para a trama. Faz com que nos familiarizemos com cada personagem de forma que, mesmo sem sabermos muitos dados a respeito deles, tenhamos noção de seu passado, presente e até mesmo futuro, dando nuances às suas personalidades.
O filme foi o responsável pelo lançamento como galã de
Richard Gere, então em início de carreira. Mesmo quem torce o nariz para ele (como eu que, na maioria das vezes, acho suas interpretações bem fraquinhas - com algumas excessões) vai perceber que ele está correto no papel de Bill. Depois deste, sua carreira deslanchou de vez. Abby é interpretada por
Brooke Adams, que na época era uma promessa e ainda estrelou alguns filmes de qualidade variada depois, mas se tornou presença rara nas telas logo em seguida. O fazendeiro é feito pelo também autor
Sam Shepard. A trilha sonora de
Ennio Morricone é outro ponto alto do filme, magnífica do início ao fim (na abertura a opção do diretor foi utilizar a música
O Aquário, uma das peças mais belas do
Carnaval dos Animais de Camille Saint-Saëns - escolha perfeita para a montagem de fotos da época se justapondo durante a apresentção dos créditos).
Morro de inveja de quem viu
Cinzas no Paraíso no cinema!!! Fiquei fascinado pelo filme desde a primeira vez que o vi, quando a Globo o exibiu num início de madrugada há muito tempo... Aquelas imagens e o clima ficaram na minha cabeça por anos, e nesse tempo todo eu esperava poder revê-lo em vídeo, mas ele nunca foi lançado em VHS por aqui. Fundada a RedeTV!, o filme tornou a ser exibido na televisão. De vez em quando eu o revia (a emissora o passava pelo menos uma vez a cada mês) e o admirava ainda mais. Mas somente com o seu lançamento em DVD (com outro título porém,
Dias de Paraíso), pude ver pela primeira vez o filme com o som original e formato
widescreen. Foi o meu primeiro contato com esta obra-prima de acordo com a concepção do seu diretor (se bem que em tela pequena, mas ainda assim melhor do que antes!). E acabei me tornando um dos mais ardorosos apreciadores deste grande filme e de seu excêntrico diretor. Poucas vezes temos a oportunidade de ver algo tão belo e poético. Mesmo sendo uma história amarga, um pouco pessimista,
Cinzas no Paraíso não deixa de ser um filme engrandecedor e umas das experiências mais maravilhosas que uma pessoa que gosta de cinema possa ter.
Linda: This girl, she didn't know where she was going or what she was going to do. She didn't have no money on her. Maybe she'd met up with a character. I was hoping things would work out for her. She was a good friend of mine.
ANGRY ALIEN
Não é cinema, mas é animação em Flash, que eu adoro quando bem bolada. A Jane, dona de dois ótimos blogs, o
Quem Tem Medo de Baby Jane? e
Entre Outras Mil, me enviou o
link de um site simplesmente genial: o
Angry Alien Productions. Nele você vai encontrar pequenas animações que são
remakes de alguns filmes, com apenas 30 segundos de duração, encenadas por coelhinhos. Por enquanto há apenas 5 "refilmagens", todas muito divertidas, de
Tubarão,
O Exorcista,
O Iluminado,
Titanic e
Alien - O 8º Passageiro. Vale a pena conhecer!!!
O INVENTOR DE ILUSÕES
Depois da revelação com
sexo, mentiras e videotape e antes da consagração com
Traffic e
Erin Brokovich - Uma Mulher de Talento,
Steve Soderbergh filmou, em 1993, uma pequena obra-prima que passou em brancas nuvens por aqui e poucos assistiram em vídeo:
O Inventor de Ilusões. O filme é uma delícia de se ver!
A história se passa durante a grande depressão americana. O garoto Aaron Kurlander mora com sua família em um hotel. O pai é um vendedor ambulante que vive viajando pelas cidades tentando conseguir sustento para a família. A mãe fica tomando conta dos dois filhos. Com a saúde debilitada, a sra. Kurlander é internada e Aaron se vê obrigado a cuidar de seu irmão mais novo. Mas, com a intenção de que as coisas fiquem mais tranqüilas para Aaron, seu irmãozinho é mandado para a casa de parentes. Aaron então fica sozinho no hotel, convivendo com malandros, funcionários e hóspedes falidos, lutando por sua sobrevivência. Como toda criança, Aaron fantasia, vive um mundo de ilusões, cria sua própria história de vida para os colegas de escola. Ao fim do filme ele aprende que essa experiência, aliada ao seu mundo de faz-de-contas, foi um grande aprendizado.
O filme, que bem poderia ser um dramalhão, tem todos os seus ingredientes muito bem dosados, criando um retrato fiel e otimista de uma época negra da história. Ainda que emocione, não apela para a lágrima fácil.
Soderbergh dirige com firmeza e delicadeza um elenco perfeito, começando pelo pequeno protagonista,
Jesse Bradford, como Aaron, que está na ativa até hoje, aos coadjuvantes
Adrien Brody (
O Pianista), a gracinha
Elizabeth McGovern (que não dá muito as caras nas telas),
Karen Allen (outra atriz carismática, de
Os Caçadores da Arca Perdida, que também aparece uma vez na vida e outra na morte), entre outros.
Reconstituindo belissimamente a época, com uma delicada fotografia e a trilha marcante de seu habitual colaborador
Cliff Martinez,
Soderbergh fez um de seus melhores filmes, e uma das obras mais sensíveis do cinema com crianças como protagonista. Um filme maduro para adultos que não se envergonham de lembrar do tempo em que não só criavam como viviam suas próprias histórias.
O Inventor de Ilusões se torna memorável por isso: mostrar que a capacidade de sonhar de uma criança não impede o seu amadurecimento, e não há motivo para tolhir a criação dessas fantasias. E como é emocionante assistir a um execelente filme que é uma verdadeira ode à inocência que todos nós já tivemos um dia...
P.S.: infelizmente o filme só foi lançado em VHS, e é um pouco difícil encontrá-lo em locadoras. Achando, não deixe de pegar!
Sra. Kurlander: Must you wear that filthy thing on your head?
Aaron: Ma, it's a hat. You wear it on your head.
ELMER BERNSTEIN (In Memoriam)
Obs.: devido a quantidade de citações, não coloquei todos os
links nesse post.
Nem nos recuperamos da morte de
Jerry Goldsmith (vide
post) há menos de um mês e, lamentavelmente, sofremos uma outra grande perda na música do cinema. Faleceu ontem, aos 82 anos de idade, o compositor
Elmer Bernstein. Coincidentemente, no penúltimo
post, sobre
Longe do Paraíso, mencionei bem por alto o seu trabalho no filme. Como muitos não guardam nomes ou prestam atenção nos créditos de abertura, vou contar aqui, muito brevemente, a história desse homem que imortalizou alguns filmes através de sua trajetória no cinema.
Com formação pela Walden School e pela New York University,
Elmer se aventurou em diversas áreas artísticas, como pintura, atuação e dança. O início de sua carreira como compositor foi criando músicas para rádios, televisão (como á série
Gunsmoke) e documentários (sendo a mais famosa, e utilizada até hoje, a vinheta de abertura dos filmes da
National Geographic). Quando ingressou no cinema ele encontrou o seu lugar e lá fincou seus pés, se tornando um dos grandes nomes do ramo, requisitado por vários diretores e musicando filmes dos mais diversos gêneros.
Seu primeiro destaque no cinema foi sem dúvida a trilha jazzistíca de
O Homem com o Braço de Ouro. Pouco depois ele provou sua versatilidade criando a trilha de
Os Dez Mandamentos,
Sete Homens e Um Destino (um clássico absoluto do gênero
western, cuja trilha foi citada diversas vezes e utilizada em comerciais do Marlboro),
O Homem de Alcatraz,
O Sol é Para Todos,
Fugindo do Inferno (cujo tema foi adotado pelos torcedores ingleses e tocado até hoje em partidas de futebol),
Positivamente Millie (deliciosa comédia musical com Julie Andrews e Mary Tyler Moore),
Clube dos Cafajestes,
007 Contra o Foguete da Morte,
O Dom da Fúria,
Os Irmãos Cara-de-Pau,
Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!,
Heavy Metal - Universo em Fantasia,
Um Lobisomem Americano em Londres,
Trocando as Bolas,
Uma Questão de Classe,
Os Caça-Fantasmas,
O Caldeirão Mágico (um dos maiores fracassos da Disney),
A Cor do Dinheiro,
Meu Pé Esquerdo,
Terra da Discórdia,
Os Imorais,
Cabo do Medo (onde adaptou, e não compôs, a música inesquecível de
Bernard Herrmann),
A Época da Inocência, e o já citado
Longe do Paraíso.
Nos últimos anos, muito provavelmente pela idade, seu trabalho diminui, mas não em qualidade, e sim em quantidade. Mas ainda assim ele continuou sendo solicitado pelos diretores que desejavam ver seus filmes musicados pelo grande maestro, muitas vezes celebrado e reverenciado. Certamente
Os Imorais perderia muito do seu charme sem a música de
Bernstein, ou
Longe do Paraíso perderia um pouco de sua emoção. Infelizmente ficamos sem escutar sua composição para
Gangues de Nova York, negada de última hora e substituída pela trilha do compositor
Howard Shore (da trilogia
O Senhor dos Anéis). Se tivesse permanecido, seria provável que o filme ganharia muito mais do que como ficou. Ao longo de sua carreira,
Elmer Bernstein teve 14 indicações ao Oscar (tendo ganho apenas por
Positivamente Millie), 5 ao Globo de Ouro (venceu por
Hawaii e
O Sol é Para Todos) e 2 ao Grammy. Me lembro do Rubens Ewald Filho comentando, na cerimônia do Oscar do ano passado, que o venerável
Elmer poderia ser o vencedor na categoria Melhor Trilha Sonora (quando concorreu por
Longe do Paraíso) já que, pela idade avançada, aquela seria provavelmente a sua última chance de premiação. Infelizmente ele estava certo. Mais uma vez o cinema perde um grande profissional. E os coros celestiais recebem mais um reforço de peso.
Tema de O SOL É PARA TODOS
(para quem tem o RealPlayer instalado)
Caso você queira baixar o RealPlayer, clique no
link abaixo:
Minha humilde homenagem ao homem que musicou cavalgadas ao sol, fugas espetaculares, milagres divinos, amores impossíveis...
Elmer Bernstein - 1922-2004
SAINDO DO FORNO!!!
Foi divulgado hoje o primeiro poster da próxima super-produção de
Peter Jackson,
King Kong. Nenhuma informação, nenhuma imagem além da logo do filme, apenas uma brincadeirinha na frase no final fazendo referência à ilha onde o macacão é capturado. Agora é agurdar os próximos posters e o lançamento do filme daqui a um ano e alguns meses pra conferir o que o gordinho neo-zelandês tá aprontando dessa vez...
LONGE DO PARAÍSO
Julianne Moore é provavelmente uma das melhores atrizes da atualidade, uma pessoa capaz de se entregar por completo às suas personagens de corpo e alma, dando-lhes nuances que poucas poderiam conseguir. É difícil imaginar outra pessoa no papel de Cathy Whitaker em
Longe do Paraíso. E é difícil imaginar este filme sem
Julianne.
Infelizmente perdi
Longe do Paraíso no cinema, tendo que assistí-lo em DVD quando foi lançado. Nesta semana o revi e confirmei o que eu já achava desde a primeira vez: o filme é, ao mesmo tempo, uma homenagem e negação do que Hollywood fazia na década de 50, além de ser uma dura crítica ao
american way of life. Tudo no filme nos remete àquela época, desde os créditos iniciais até os finais, passando pela música (magnífica, do grande veterano
Elmer Bernstein), fotografia, figurinos, diálogos, tudo. A história do casamento perfeito de Cathy e Frank Whitaker (
Dennis Quaid, mostrando que, quando bem dirigido e sob controle, consegue ser um excelente ator) que se vê ameaçado pela descoberta do homossexualismo dele poderia acontecer em qualquer família de qualquer lugar do mundo. Mas nos Estados Unidos de 1957, tradicional e conservador (e preconceituoso) até o último fio de cabelo, aí já era demais... E foi isso que o diretor
Todd Haynes quis mostrar, que por trás daquelas casas maravilhosas, com belos jardins, cuidadosamente decoradas, habitadas por uma família perfeita, poderia haver muitos segredos guardados por um silêncio absoluto para se manter as aparências. E, quando estes segredos ameaçam vir à tona, o mais duro é fortalecer o silêncio para que eles nunca sejam revelados.
Os personagens centrais vivem este dilema, têm que engolir suas emoções a seco, digerí-las solitária e silenciosamente para não abalarem a estrutura da família e a opinião das pessoas que os rodeiam. E
Haynes sabe trabalhar muito bem estes contrastes entre o que se sente e o que se pode expressar, não só através das interpretações de seus atores como também com o uso da fotografia e cenografia. As cores berrantes típicas dos filmes da época são utilizadas em profusão, são verdes e vermelhos, amarelos e roxos, todos muito fortes, colorindo os cenários e vestuários, expressando o conflito interno daquelas pessoas que sofrem para manter as aparências. A situação de Cathy piora ainda mais quando ela faz amizade com o seu jardineiro, um negro, e começam as fofocas a respeito do relacionamento dos dois. As conseqüências sofridas por ambos e pela filha do jardineiro levam a um final que mostra o que vinha a ser (e infelizmente ainda é) a sociedade americana, e nos faz chegar a uma lamentável constatação do que é na realidade o
american way of life: por mais que se sinta um vazio enorme por dentro, por mais que você não encontre verdadeiramente uma razão para viver, preserve a sua imagem perante os outros ou corra o risco de ser um excluído. Só nos resta torcer para que esse pensamento seja extingüido cada vez mais rápido em todo o mundo para que possamos, finalmente, viver em total liberdade em todos os sentidos. E agradecer a Deus por ainda existirem pessoas conscientes que façam filmes assim, e também pela existência dessa atriz maravilhosa que é
Julianne Moore.
Cathy Whitaker: That was the day I stopped believing in the wild ardor of things. Perhaps in love, as well. That kind of love. The love in books and films. The love that tells us to abandon our lives and plans, all for one brief touch of Venus. So often we fail at that kind of love. The world just seems too fragile a place for it. And of every other kind, life remains full. Perhaps it's just we who are too fragile.
O SHOW NÃO PODE PARAR
Notei que já falei de alguns gêneros por aqui, mas nunca de nenhum documentário. É realmente um gênero meio difícil pra mim, tem que falar sobre algo que me agrade muito, ou ser inovador, pra me chamar a atenção. E até que ultimamente tem surgido alguns bons filmes no gênero, que se tornou até bastante popular com a descoberta de
Michael Moore. Quem diria, há alguns anos, que um dia documentários figurariam nas listas de campeões de bilheteria?
Por indicação da minha amiga Lucimar (ou melhor, como ela gosta de ser chamada, Lu), assisti um filme em DVD que infelizmente não passou por aqui e foi parar direto nas locadoras. Eu até tinha ouvido falar do filme antes, mas não sabia que já havia sido lançado aqui e muito menos sabia seu título nacional (que, convenhamos, não tem nada a ver com o original).
O Show Não Pode Parar é um documentário essencial para os apreciadores de cinema. E também um ótimo exemplo de como se pode produzir um filme biográfico fugindo do esquemão de entrevistas, depoimentos, imagens de época de sempre. Não que esses elementos não estejam lá, estão sim! Mas de uma forma extremamente original e criativa.
O filme conta a trajetória de
Robert Evans, que já foi uma das figuras mais poderosas da indústria hollywoodiana de cinema. Pra quem não sabe, ele foi o responsável pelo lançamento de filmes que tornaram a Paramount um dos estúdios mais fortes no final da década de 60 e início de 70. Graças a
Evans, o mundo pôde assistir
O Bebê de Rosemary,
O Poderoso Chefão,
Chinatown, entre tantos outros. E o documentário mostra tudo isso, desde o início de sua carreira, na tentativa (frustrada) de ser galã de cinema, sua entrada no ramo da produção e as fofocas, segredos e atritos nos bastidores dos filmes. Seus amores, seus amigos, suas decepções, a descoberta das drogas. Tudo narrado pelo próprio
Evans sob a projeção de fotos digitalmente trabalhadas causando um efeito esteticamente dinâmico e muito bonito, cenas de época e dos filmes citados por ele, além de algumas cenas filmadas recentemente em sua mansão (e, diga-se de passagem, belissimamente fotografadas).
O mais legal de
O Show Não Pode Parar é que, mesmo para quem nunca ouviu falar de
Evans, tudo passa a parecer familiar, pois além da narrativa "esperta" e informal, o filme torna o assunto bem familiar para aqueles que assistiram as obras produzidas por ele. Além de ser mais um retrato daquilo que todo mundo sabe: Hollywood nada mais é que uma fábrida de sonhos e ilusões, onde um dia você pode estar no topo, reinando absoluto, e no outro você não é ninguém e se torna uma mera sombra do passado. Obrigatório e imperdível!
P.S.: mais um detalhe curioso e não citado neste filme - ao final, já nos créditos, vemos
Dustin Hoffman fazendo uma imitação de Evans na época de
Maratona da Morte. O mesmo
Hoffman, anos mais tarde, prestou uma homenagem ao amigo na interpretação do produtor de TV em
Mera Coincidência (atuação esta indicada ao Oscar de Melhor Ator). Vejam (ou revejam) o filme para perceber a semelhança entre os dois e a grande sacação de
Hoffman.
Robert Evans: There are three sides to every story. My side, your side, and the truth. And no one is lying. Memories shared serve each one differently.
A BELA E A FERA
Hoje, 7 de agosto, por ser aniversário da minha irmã, pensei em escrever sobre um filme que não só eu, como ela também adora,
A Bela e a Fera. Este desenho animado marcou, no início da década de 90, a retomada dos estúdios Disney ao sucesso. Depois de amargar durante grande parte dos anos 70 e praticamente toda a década de 80 uma série de fracassos e lançamentos que não conseguiam atrair tanta gente quanto os êxitos dos áureos tempos do estúdio, a Disney finalmente fez as pazes com o público (e a bilheteria) em 89 cpom o lançamento de
A Pequena Sereia, marcando o início da rtetomada. Em 91 o estúdio lança a adaptação do clássico conto de fadas
A Bela e a Fera e o sucesso se repete, mas numa escala ainda maior e inesperada: o filme se tornou o primeiro desenho animado a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme, fato inédito até hoje (atualmente já há uma categoria na premiação para Melhor Filme de Animação, mas é bem recente. Na época, o desenho competiu com
Bugsy,
JFK,
O Príncipe das Marés e o vencedor do ano
O Silêncio dos Inocentes). Acabou levando só os Oscars de Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção, mas independente da premiação, ele logo conquistou o público, tanto o infantil quanto o adulto, e se tornou um favorito de muitos.
Como quase sempre nas suas adaptações, o estúdio deu para
A Bela e a Fera a sua leitura, enchendo a história de personagens "fofinhos", alterando uma coisinha aqui e outra ali, aumentando em muito a dose de humor, inserindo canções que ajudam a complementar a narração e fazendo todos saírem bastante encantados do cinema (alguns com lágrimas nos olhos). O básico tá lá, o tema central da história continua a mesma, mas
A Bela e a Fera trouxe ainda uma inovação.
Desde
As Peripécias de Um Ratinho Detetive (ou, simplesmente,
O Ratinho Detetive como foi lançado em vídeo), de 86, o estúdio vinha incorporando o uso da computação gráfica em seus desenhos para aumentar o efeito de realismo em determinadas cenas. No Ratinho temos a cena do embate entre o herói e o vilão nas engrenagens do
Big Ben, onde percebemos uma maior fluidez nos movimentos dos elementos cênicos. Em
Bela a cena mais marcante em que se utilizou esse recurso foi a da dança entre os protagonistas no salão de baile do castelo. Através do casamento perfeito entre os movimentos do cenário em computação gráfica e dos personagens desenhados tradicionalemente, temos o prazer de assistir uma das cenas mais encantadoras do filme, e das mais bonitas também. Daí em diante essa técnica se tornou comum em praticamente qualquer desenho animado feito de forma tradicional (bem, nem tão tradicional assim mais).
Outro destaque é a trilha sonora. Durante um período (iniciado com
A Pequena Sereia) o compositor
Alan Menken se tornou onipresente na lista de indicações ao Oscar: ele fazia praticamente todas as trilhas dos desenhos da Disney. E invariavelmente ganhava. Com esta, ele e seu parceiro
Howard Ashman deram ao filme um ar romântico, pastoral e também um toque dos grandes musicais clássicos de Hollywood da década de 50, com números super-produzidos, coreografias mirabolantes dos personagens e figurantes e uma pirotecnia escandalosamente colorida e luminosa.
O filme é sucesso até hoje. Sua edição especial em DVD foi aguardada durante anos e vendeu horrores. Na época em que foi lançado pela primeira vez em VHS, por volta de 93, comprei para a minha irmã de presente de aniversário. Hoje, 11 anos depois, tô eu falando desse filme justamente no dia dela. Infelizmente tô longe e não pude ir dar um abraço nela, nessa figurinha que é ao mesmo tempo a Bela, docinha, delicada, dengosa; e a Fera, um vulcão barulhento e arrasador quando esquenta a cabeça. Fica aqui então o meu desejo de que minha irmã Graziela tenha um ótimo aniversário e tudo o de melhor que ela merece ter. Grazi, muitas felicidades, saúde, sucesso e luz sempre, que Deus te abençoe e que você continue sendo sempre essa pessoa admirável, com garra e determinação, responsabilidade e sensibilidade. Você pode até não acreditar, mas sou seu fã!
FELIZ ANIVERSÁRIO !!! Um beijão enorme e até breve!
Belle: What do you know about my dreams, Gaston?
Gaston: Plenty! Picture this... a rustic hunting lodge... my latest kill roasting over the fire... and my little wife, massaging my feet... while the little ones play on the floor with the dogs... we'll have six or seven.
Belle: Dogs?
Gaston: No, Belle! Strapping boys, like me!
Belle: Imagine that.
Gaston: And do you know who that little wife will be, Belle?
Belle: Let me think...
Gaston: You, Belle!
Belle: Gaston... I - I'm speechless... I really don't know what to say...
Gaston: Say you'll marry me!
Belle: I'm truly sorry, Gaston... but I - I just don't deserve you!
JESUS CRISTO SUPERSTAR
Os últimos momentos de Jesus Cristo na Terra. A traição de Judas, o julgamento, a crucificação, a ressureição... tudo narrado por músicas! A adaptação da ópera-rock de Andrew Lloyd Weber e Tim Rice para as telas ficou à cargo de
Norman Jewison, que construiu um cenário desolador e árido para contar a história de Jesus em seus últimos dias. Ainda que pareça datado, naquele clima hippie do final dos anos 60 e início dos 70, não há como resistir à narrativa cantada (com músicas maravilhosas como
Everything is Alright entre outras) e a locação num deserto onde um aparente grupo de jovens atores vai encenar a Via Crucis.
Não sei como foi na época, mas imagino ter sido bem polêmico quanto as versões mais recentes da vida do Messias no cinema. Ainda mais colocando uma asiática como Maria Madalena, um negro como o traidor Judas, figuras andróginas em diversos outros papéis, com aquele figurino e maquiagem exageradamente coloridos, e as pessoas chamando o Filho de Deus como J. C.! Apesar de todas essas liberdades, não dá pra ver em nenhum momento do filme um tom desrespeitoso e contra os conceitos cristãos. Fora que demonstra a coragem do estúdio em produzir um musical numa época em que o gênero estava mal das pernas, quase extinto.
Vi pela primeira vez, depois de muito ouvir falar, quando tinha uns 15 anos de idade e, de certa forma, o filme me marcou. Fiquei meio chocado no fim, um tanto melancólico e desesperançoso. Fiquei com uma sensação de abandono. E ao mesmo tempo fiquei maravilhado com as músicas e a encenação, uma inventiva leitura de uma história que todos estamos carecas de saber, dessa vez contada de forma original e
avant-garde.
Jesus Cristo Superstar é um dos meus musicais favoritos!
Pilatos: Then you are a king.
Jesus Cristo: It's you that say I am. I look for truth, and find that I get damned.
Pilatos: And what is 'truth'? Is truth unchanging law? We both have truths. Are mine the same as yours?