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O pai de todos...

10.6.04


O CORCUNDA DE NOTRE DAME

Quem me conhece já sabe... quem só me lê aqui já deve ter percebido. Eu sou louco por desenhos animados! Fico fascinado com as técnicas utilizadas, com a beleza plástica de cada um. Um dos que mais gosto é O Corcunda de Notre Dame, produzido pelos estúdios Disney em 96. A adaptação do romance clássico de Victor Hugo acabou sendo um fracasso mediano, não conseguiu tocar muito as pessoas, e dá até pra entender a razão. O principal é que ele É realmente um desenho atípico da Disney, vejam só se concordam comigo ou não:

- Não há personagens fofinhos, nem animais falantes: este apresenta NO MÁXIMO os personagens dos gárgulas que tomam vida somente na pressença do corcunda Quasimodo, ou seja, podem muito bem ser alucinações dele. O único personagem animal do filme, o bode do Capitão Phoebus, não emite uma palavra sequer, fato bem anormal num desenho Disney...;

- O protagonista é monstruoso: embora os desenhistas tenham tido a preocupação de dar traços simpáticos ao Quasimodo, fazendo dele uma figura cativante, ele não deixou de ficar feio, deformado, sem nenhum traço de galã;

- A mocinha é "adulta" demais: a cigana Esmeralda é uma das personagens femininas de Disney mais bonitas. Além dessa beleza madura em relação às outras, ela apresenta uma sensualidade nunca antes mostrada num desenho do estúdio, e a independência também (afinal, ela tem que lutar para sobreviver, além de mulher, é cigana, mal vista pela sociedade machista e preconceituosa);

- O visual é gótico demais: já não é a primeira vez que o estúdio se aventura pelo visual soturno em seus desenhos. Em 1985 a Disney amargou um grande fracasso com O Caldeirão Mágico, ótimo desenho que utilizava um visual por demais dark e assustador, além de não apresentar nenhuma canção. Em O Corcunda... a Disney amenizou um pouco o lado sombrio, mas ainda assim o filme tem um clima mais pesado que os demais, mostrando até mesmo cenas de "assédio sexual" (o juíz Claude Frollo cheirando o cangote de Esmeralda agarrando-a por trás, a chacota que Quasimodo sofre em praça pública, a cigana quase morrendo queimada numa fogueira...). Em contrapartida o desenho também inovou em técnicas de animação, integrando elementos de computação gráfica aos desenhos feitos à mão, dando maior realismo principalmente em movimentações de câmera, em efeitos de iluminação e nas cenas de multidão, onde milhares de "figurantes" interagem com a ação desenhada;

- A trilha sonora: ao contrário dos demais também, O Corcunda... não tem aquelas canções que alegram a todas as idades e que dão vontade da gente cantar quando está feliz. Utilizando muito do canto gregoriano e das melodias de época, a trilha foi toda composta para se encaixar perfeitamente às imagens, muitas vezes deixando-nos angustiados, outras melancólicos, mas sempre belíssimas.

Enfim... o desenho é bom pra caramba! Eu fiquei fascinado com aquele espetáculo e não resisti: tive que assistir O Corcunda... 5 vezes no cinema! Saiu o CD? Comprei! Saiu em vídeo? Comprei também! Fiquei louco com um desenho que mostrava um homem da igreja tendo crises em frente a uma lareira por causa da sua atração por uma mulher! Ouso dizer que O Corcunda de Notre Dame é um desenho para adultos com um toque de Disney. Tem a parte "baba" como todos, mas é de uma força e uma beleza inigualáveis...

Esmeralda: [lendo a palma da mão de Quasimodo] Hmm, hmm, hmm. That's funny. I don't see any.
Quasimodo: Any what?
Esmeralda: Monster lines. Not a single one. Now you look at me. Do you think I'm evil?
Quasimodo: No, no! You are kind, and good, and...
Esmeralda: And a gypsy. And maybe Frollo's wrong about both of us.

5.6.04


ANTES DA CHUVA

Mais um daqueles que me fizeram ficar catatônico... Eu acabara de entrar na UFF e tinha uma disciplina, sobre Filosofia, sobre a qual havia ouvido diversas opiniões sobre o professor. Que ele era um "louco" foi a mais amena de todas. Matei o quanto pude as primeiras aulas tentando evitar sessões de enlouquecimento, mas o medo de ser reprovado por faltas me fez ir um dia para a bendita aula, que começava às 16:00. Com mais ou menos 40 minutos de atraso chega a figura. Os poucos alunos que estavam em sala (uns 8 contando comigo) estavam todos sentados no fundo. O professor (me esqueci o nome dele) adentra a sala em silêncio, coloca sua bolsa na mesa dele, pega uma carteira no meio da sala e a vira para nós, se senta, acende um cigarro e fica fumando o dito cujo sem pronunciar uma palavra sequer. Foram uns 10 minutos de silêncio constrangedores, desconcertantes mesmo. Vocês podem imaginar o que é ficar de frente prum professor, com seus 60 e poucos anos de idade, cabelos grisalhos compridos e desgrenhados, roupa estilo "hipponga", barba mal feita, totalmente calado, fumando um cigarro e olhando diretamente para os alunos. Última tragada, guimba pisada no chão, mais uma olhadela para os alunos e ele resolve se pronunciar: "bem, estamos aqui de novo, no mesmo lugar, somente nós juntos nessa sala de aula, no mesmo dia e hora de alguns anos atrás". Não sei os outros, mas eu arregalei os olhos. Ele continuou: "é porque vocês sabem, né? Já estivemos aqui nessa mesma sala, nesse mesmo horário, muitas outras vezes, só não nos lembramos disso". Pronto! Ali pude perceber porque o chamavam de louco. Ele continuou falando dos fatos que acontecem repetidamente no tempo e eu boiando naquela viagem toda. Então ele sugeriu que assistíssemos no cinema um filme macedônio que estava passando, Antes da Chuva, que poderia ilustrar o que ele dizia. Eu não tinha muita informação sobre o filme, a não ser que ele tinha concorrido ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e estava indicado ao Oscar na mesma categoria. Depois do comentário e sugestão do louco eu fiquei com mais medo ainda de ver.

Mas como eu tenho uma mania de querer ver TODOS os filmes indicados ao Oscar antes da premiação, fui conferir o tal filme no cinema, ainda que morrendo de medo. Pra minha surpresa, o cinema estava bem cheio. As luzes se apagam e começa. Primeira coisa que gosto: a música. A trilha sonora que começa a tocar nos créditos de abertura é uma das coisas mais lindas que já escutei na minha vida. Tipicamente regional, daquelas que grudam na cabeça e nos remetem àquele lugar e cultura tão distantes fazendo-nos sentir tão próximos àquilo tudo. E as imagens de fundo, belissimamente fotografadas, uma coisa! O filme se divide em três episódios, "Palavras", "Rostos" e "Imagens". No primeiro, um jovem monge que fez votos de silêncio conhece uma garota albanesa que foge da morte pelas mãos de um grupo que a acusa de ter matado um de seus familiares. O monge dá abrigo a ela e os dois acabam sendo expulsos do mosteiro. No segundo, uma editora de uma agência londrina está dividida entre o amor de dois homens, seu marido e um fotógrafo macedônio. E o terceiro episódio é sobre o retorno de Aleksander, o fotógrafo do segundo episódio, ao seu país, onde depara com a dura realidade e os conflitos que ocorrem lá.

O grande lance deste filme é que as três histórias se cruzam e, por incrível que pareça, há e não há ao mesmo tempo ordem cronológica entre os fatos. Os caminhos dos personagens se cruzam diversas vezes, você vê algum fato ocorrendo ao fundo num episódio que acontece de novo no seguinte, e depois esse fato volta a ser mostrado em outro ângulo... É desconstrução narrativa sim, mas sem pretensão alguma, embora com muita consistência e conteúdo. As coisas não acontecem por acontecer, elas têm importância na história e fazem sentido; ninguém fica boiando e nem precisando buscar pistas na internet e explicações absurdas depois de assistir. E o final é impactante, impossível ficar sem se envolver naquele fantástico quebra-cabeças inteligente e sensível, um belíssimo libelo contra os horrores da guerra e da intolerância. Saí espantado do cinema e, mesmo continuando achando o tal professor de Filosofia pirado, tive a certeza de ter acabado de ver um filme único, uma obra-prima inesperada, cinema para se sentir e pensar. IMPERDÍVEL!

Sacerdote ortodoxo: O círculo não é redondo e não tem fim...