Antes de mais nada, uma explicação: alguns podem ter notado que tenho andado meio sumido do
blog.
NÃO É DESLEIXO! É que meu computador tá uma titica, desanima qualquer um de tentar postar alguma coisa. Nesse fim de semana espero dar um jeitinho nele... tomara que consiga e volte ao ritmo de postagem diária! Mas hoje eu tinha que escrever de qualquer jeito, afinal é dia 29 de abril (mentira, já é 30, mas como ainda não dormi, ignorem o horário e considerem 29/04)!!!! E lá vai meu
post, não sobre um filme, e sim sobre uma pessoa que aniversaria no dia de hoje... Não, não é minha amiga sumidona Érica, não é o
Daniel Day-Lewis e nem a
Uma Thurman. A homenageada de hoje é a MARAVILHOSA...
MICHELLE PFEIFFER
Alguém se lembra da primeira vez que viu Michelle? Eu sim! Nossa, tem tempo... lá pelo finalzinho da década de 70 ou início de 80, não sei precisar, mas lá tava ela, loirinha, uma graça, andando pela praia com um par de patins de 4 rodinhas (paralelas) pendurado no ombro e falando das maravilhas que o sabonete Lux Luxo fazia para sua pele de estrela. Estrela? Que nada! Naquela época ela não passava de uma aspirante a atriz que havia partcicipado de episódios da
Ilha da Fantasia (essa eu queria ver, Michelle saltando do avião sendo recebida pelo Tatoo que acabara de gritar
"o avião! O avião!") e
CHiPs. Mas assim como chamou a atenção deste então moleque, ela atraiu também olhares de muitos produtores e diretores na época (até parece que só de mim e deles... e o resto da humanidade?). Da telinha da TV pro cinema foi um pulo, mas digamos que não dos melhores...
Um de seus primeiros filmes eu vi em vídeo pirata.
Charlie Chan and the Curse of the Dragon Queen era um horror... Deram-lhe então o papel principal na continuação de um dos maiores sucessos da década de 70. E lá estava Michelle, linda e com um penteado pavoroso se esgoelando e dançando coreografias tenebrosas em
Grease 2. Tadinha... teria aquela coisinha linda algum talento por baixo da bela face? O pior é que tinha!
Em 1983
Brian de Palma lança o ultra-violento (para a época, hoje poderia passar numa
Sessão da Tarde sem muito alarde)
Scarface, colocando Michelle (sentiram a intimidade, né?) como esposa do traficante cubano. A crítica passou a prestar mais atenção naquela figura branquíssima, loiríssima, longilínea e movida a pó do filme. Hollywood também. Dois anos depois ela volta, de cabelo curtinho (e numa rápida aparição com seu corpo nu em pelo) na comédia policial
Um Romance Muito Perigoso ao lado da mosca
Jeff Goldblum. O filme é uma divertida brincadeira do diretor
John Landis com seus amigos e colegas do ramo, e Michelle a melhor coisa dele (tem o clip de uma das canções da trilha do filme em que ela participa tocando, se não me engano, saxofone numa banda com outros atores! LIIIIIIINDAAAAAAAA!!!!!!!!). No mesmo ano de 85 ela participa ainda de uma fábula encantadora, o belíssimo romance
Ladyhawke - O Feitiço de Áquila, personificando a amaldiçoada Isabeau, que se transforma num falcão durante o dia. Aí ferrou... nascia então a MUSA MICHELLE.
De lá pra cá sua carreira foi deslanxando cada vez mais. A adorável e muito fértil jornalista seduzida pelo demônio em
As Bruxas de Eastwick, a breguíssima e inocente (e cornuda) viúva de um mafioso em
De Caso com a Máfia (moreninha e de cabelo encaracolado...), a elegante dona de um restaurante dividida entre dois homens em
Conspiração Tequila...
E veio então sua primeira indicação ao Oscar, como Atriz Coadjuvante. Sua atormentada Madame de Tourvel, vítima dos jogos e tramas de sedução, vingança e traição (com muito cinismo e humor refinado, diga-se de passagem) da nobreza da França pré-revolução em
Ligações Perigosas contagiou críticos e colegas. Michelle havia então se elevado à constelação das grandes estrelas de Hollywood. No ano seguinte, outra indicação, agora na categoria principal por
Susie e os Baker Boys. Ela ganhou inúmeros prêmios de críticos pela vulgar, talentosa e maravilhosa (já usei esse adjetivo antes...) cantora que acompanha dois irmãos pianistas. Como esquecer Michelle cantando
Makin' Whoopie em cima de um piano de cauda? Como a frase do poster do filme,
"uma voz que fasina... um corpo que enlouquece...". E, para melhorar ainda mais, ela canta com sua própria voz, nada de dublagem! É ou não é uma atriz de verdade?
Na primeira metade da década de 90 Michelle continuou estrelíssima, falando com sotaque em
A Casa da Rússia, interpretando uma garçonete simplória e romântica (tentaram enfeiá-la mas não conseguiram) em
Frankie & Johnny, e, prova de sua incrível versatilidade, encarnando a Mulher-Gato em
Batman - O Retorno (impossível uma escolha melhor... pena que o filme que tá vindo da personagem daqui a pouco não é com a felina definitiva!). E tome mais uma indicação para Melhor Atriz, desta vez por
Love Field (que aqui no Brasil recebeu dois títulos:
Conflitos de Amor no cinema e
As Barreiras do Amor em vídeo). Numa interpretação super sensível, Michelle é uma dona de casa muito da frustrada, que venera Jacqueline Kennedy (e tenta imitá-la em tudo), que se envolve num bololô com uma garotinha negra e seu pai (com quem tem um romance) na confusão do assassinato de JFK. Um ótimo filme, desconhecido da maioria, que vale ser descoberto.
Em 93 Michelle estava radiante em
A Época da Inocência. Sua Ellen Olenska, uma mulher que desafia as regras da sociedade hipócrita da Nova York do final do século XIX é uma das melhores qualidades deste filme maravilhoso (e rejeitado por muitos infelizmente). De lá pra cá Michelle fez ainda bastante coisa, mas algo mudou. Ela continua linda, talentosíssima, mas deu uma diminuida nos filmes. Participou de alguns campeões de bilheteria, de alguns fracassos também, tem se aventurado pela animação (dublando personagens obviamente), tem pego papéis pequenos... Michelle mudou, mas não pra pior, e nem pra melhor. Simplesmente mudou.
Depois de passar por alguns romances e namoros que não foram adiante, a ex-caixa de supermercado resolveu sossegar o facho e constituir família. Diga-se de passagem, tava na hora... Maravilhosa do jeito que é, sempre desconfiei de que ela tinha algum defeito, e tem! Adorava ter caso com homem feio!!!
Michael Keaton,
John Malkovich,
Fisher Stevens (um dos mais duradouros)... ô mulher benevolente... Era daquelas que nunca ia deixar ninguém sofrer por ser recusado por causa da feiura. Mas ela parou com essa agitação amorosa, em março de 93 adotou uma garotinha (Claudia Rose), em novembro do mesmo ano casou-se com o produtor
David E. Kelley (com quem está até hoje) e com ele teve, em 94, o seu filho Jack Henry. Preferiu se dedicar mais à família e, apesar de ainda ativa e estrela absoluta, participa de projetos não tão grandes e nem tão freqüentes. Tudo bem, recusou o papel de Clarice Starling em
O Silêncio dos Inocentes por achar violento demais e o de Catherine Tramell em
Instinto Selvagem por não se achar adequada à personagem, mas ainda assim continua linda e brilhante como Titânia em
Sonho de Uma Noite de Verão, envolvente como a mulher assombrada em
Revelação, a advogada de um doente mental em
Uma Lição de Amor e a mãe assassina e dominadora de
Deixe-me Viver! (este último eu vi nesta semana e recomendo muito. É muito bom, uma estória muito bonita e emocionante, com grandes atrizes além da deusa em questão, e tem tanto em VHS quanto em DVD nas locadoras).
A divina Michelle completa hoje 46 anos. Não parece... Não tem mais aquele ar jovial no rosto, já se apresenta como uma mulher madura sim, mas é bem difícil acreditar que ela tenha a idade que tem. Já fez muita loucura sim, mas há algum tempo tá no caminho da redenção (a famosa baixinha cleptomaníaca teve seu tratamento numa clínica de reabilitação pago pela Michelle, sabiam?). E quem diria que aquela modelinho da propaganda de sabonete iria virar uma diva do cinema? Não foi somente graças a sua inigualável beleza, mas também graças ao talento, versatilidade, dedicação e simpatia.
Infelizmente não consegui falar com ela hoje. Seu telefone dava sempre ocupado então desisti. Mandei um mail, espero que ela não fique muito chateada por eu não poder ter ido beijá-la pessoalmente. Mas com certeza ela me perdoará pela minha ausência, afinal, os deuses perdoam sempre os tolos, os falíveis e os sonhadores...
Parabéns Michelle!
(e lógico, parabéns também ao Daniel e à Uma que já trabalharam com a deusa - que inveja... - e pra Érica que não trabalhou com ela mas ainda assim merece um beijão)
SUPERMAN - O FILME
No último feriado eu estava de bobeira em casa, sem ter nada o que fazer e então fiz o que me restava: fiquei em frente à TV, zapeando os canais. Parei no SBT e estava começando
Smallville. Não gosto de seriados, não tenho paciência mesmo pra assistir (o canal Sony, se dependesse de mim, teria audiência zero) e já tinha visto um ou dois episódios desta. É até bem legalzinha, bem feita, e nesse dia o episódio foi bastante interessante, tendo uma participação especial inclusive do
Christopher Reeve. Deu então uma saudade do filme do Superman que eu vi no cinema com 6 anos de idade... Passei na locadora mais tarde e peguei a edição em DVD de
Superman - O Filme, especial com dois discos, um só de extras! E como o filme é muito legal!!!
A história é manjada e todo mundo tá careca como o Lex Luthor de saber: Kal-El é o único sobrevivente da destruição do planeta Krypton, enviado por seu pai Jor-El para a Terra, onde ele terá aparência semelhante aos nativos mas com poderes e resistência física superiores. É adotado pela família Kent e criado na cidadezinha de Smallville (traduzido hilariamente como Pequenópolis no seriado - parece cidade das histórias do Pato Donald) e depois de adulto se muda para Metrópolis onde arranja emprego no jornal Planeta Diário e se apaixona pela repórter Lois Lane, mantendo sua verdadeira identidade em segredo.
O mais legal de rever
Superman 25 anos depois é constatar que o filme é bom mesmo, independente da idade em que se assiste. Lógico que, com 6 anos de idade, muita coisa me apavorou, como a destruição de Krypton ou a Lois Lane sendo soterrada dentro de um carro. Mas só agora pude perceber o quanto o roteiro é bem escrito, com humor na dose certa (quase auto-paródia, mas sem cair no escracho), como os atores são ótimos, a direção segura, os efeitos bem bolados... Ou seja,
X-Men não foi a primeira adaptação de uma história em quadrinhos satisfatória,
Superman também é um filmaço!
E fica melhor ainda se assistido nesta versão em DVD. É muito legal ver o filme primeiro, depois com os cometários do diretor
Richard Donner (o mesmo do maravilhoso
A Profecia, da série
Máquina Mortífera,
Ladyhawke - O Feitiço de Áquila e
Os Goonies, além de ter namorado a "ternurinha" por um tempinho...) e, em hipótese alguma, deve-se deixar de assistir o disco de extras. Aí então a gente passa a admirar ainda mais o filme, conhecendo todos os percalços da produção (várias confusões com os produtores, atrasos de filmagens, etc), ver os vários testes de elenco, saber como foram produzidos os efeitos especiais (muito antes da computação gráfica, tudo muito artesanal mesmo), e perceber o prazer e a boa vontade que as pessoas envolvidas no filme sentiam no processo de produção. Sem falar da inesquecível música de
John Williams e dos créditos de abertura com os nomes do elenco e da equipe técnica em zoom que viraram marcas registradas.
Foi emocionante rever este grande filme, que foi um grande sucesso na época, e perceber que o espírito de fantasia que eu não acreditava mais haver nele ainda resiste. Não foi só o impacto da época, ele permanece até hoje. Cheio de qualidades (e defeitos também, principalmente se compararmos ao que se produz hoje em termos técnicos), uma história absurda e divertidíssima, emocionante até hoje. Foi muito bom rever o filme nesta edição especial, principalmente por uma parte especificamente marcante, quando o diretor fala sobre o atual estado de
Christopher Reeve. Não vou conseguir ser fiel ao que ele disse, mas em outras palavras, ao mencionar o fato de que aquele ator, no qual poucos acreditavam, foi o único capaz de conseguir convencer a equipe toda que, com a ajuda dos efeitos, as cenas de vôo seriam convincentes,
Donner diz: "se um dia, com a força de vontade dele, eu vi que ele era capaz de voar, não duvido que em breve ele seja capaz de andar de novo". Um DVD obrigatório de um filme marcante.
Superman: I'm here to fight for truth, justice, and the American way.
Lois Lane: You're gonna end up fighting every elected official in this country!
O ESTRANHO MUNDO DE JACK
Posso até parecer repetitivo, ontem falei de
Tim Burton e hoje volto a falar... É que eu estava arrumando as malas pra voltar pra Nichteroy e ouvindo a trilha de
O Estranho Mundo de Jack, filme de animação em
stop-motion escrito e produzido por ele. Êta filminho gostoso, que saudade que deu!
Pra quem não sabe,
stop-motion é a técnica de animação que ficou conhecida como "filme de bonequinho de massinha". Utilizada no cinema desde os seus primórdios na criação de efeitos que davam vida a monstros como o
King Kong de 1933 e imortalizada por
Ray Harryhausen nos filmes do
Simbad e em
Fúria de Titãs por exemplo, o
stop-motion é uma das técnicas mais queridas e trabalhosas. Consiste em, como num desenho animado, registrar cada quadro separadamente, movimentando os personagens um pouquinho de cada vez para, quando o filme ser projetado na velocidade padrão de 24
frames por segundo, termos a impressão de movimento. Até bem pouco tempo grandes filmes usavam o
stop-motion, como os andadores e algumas criaturas da série
Star Wars. Por pouco os dinossauros de
Jurassic Park também não foram "de massinha" - já havia disponível tecnologia suficiente para dar-lhes vida digitalmente em
CGI, mas os
story-boards, espécie de história em quadrinhos que serve para pré-visualizar e preparar as cenas, foram todos feitos em
stop-motion ao invés de planejados em papel!
Tim Burton começou sua carreira como animador nos estúdios Disney e
O Estranho Mundo de Jack foi seu retorno ao berço. Um conto-de-fadas macabro bem típico dele, o filme conta a história de Jack Skellington, uma caveirinha magérrima, ídolo na cidade do
Halloween (ele é o Rei das Abóboras). Entediado com a mesmice anual da festa, ele resolve dar um passeio e descobre a cidade do Natal. Encantado com toda aquela alegria e explosão de luzes e cores, ele, sem entender o espírito natalino e a essência da festa, decide promover, com a ajuda de seus conterrâneos, a festa de Natal a partir de então. Seu plano ingênuo é de seqüestrar o líder da festa de Natal, Papai Noel, e substituí-lo na entrega de presentes para assim ele próprio poder propagar a alegria entre as crianças entregando seus presentes. Lógico que tudo dá errado.
O filme é povoado de criaturas bem típicas do universo de
Tim Burton, com design gótico e ao mesmo tempo simpático. São monstros muito bem bolados e inesquecíveis, como o prefeito da cidade do
Halloween que tem duas caras, ou o cientista maluco que massageia seu cérebro para poder raciocinar melhor. Apesar de não ter sido dirigido por ele (quem ficou a cargo foi
Henry Selick, que depois voltaria ao gênero com
James e o Pêssego Gigante), pode-se ver o toque de
Burton em cada detalhe, na história, nos desenhos dos personagens e cenários. Outro destaque do filme e que também é uma marca registrada de
Burton é a trilha sonora de
Danny Elfman. Seu parceiro habitual na criação das músicas de seus filmes,
Elfman compôs canções deliciosas para
Jack, começando por
This is Halloween, passando por
What's This, até a
Oogie Boogie's Song, cantada pelo Bicho Papão, uma das criações mais impressionantes do filme: um monstro de saco de batata recheado de insetos nojentos. As canções são frutos de mais uma união perfeita entre
Burton e
Elfman.
A gênese do filme remonta dos tempos de
Tim Burton como animador, onde ele escreveu um poema que viria a gerar o roteiro de
Jack. Até seu lançamento, em 1993, foi um longo e penoso processo. Os animadores, devido à complexidade da técnica, conseguiam filmar apenas 70 segundos de filmes por semana. Pra se ter uma idéia, só o personagem principal, Jack, tinha mais de 400 cabeças, todas feitas à mão, cada uma com uma expressão facial diferente para dar maior realismo (veja algumas delas abaixo). A fantasia
dark de
Burton foi o primeiro filme feito totalmente em
stop-motion lançado nos cinemas em anos e, pela primazia da técnica, recebeu uma merecida indicação ao Oscar de Efeitos Visuais (abocanhados pelos dinossauros digitais de
Spielberg), mas infelizmente não para sua trilha sonora.
Quando assisti
O Estranho Mundo de Jack no cinema, num Festival do Rio, fiquei encantado. Me lembrei de um filme que passava muito na Sessão da Tarde na década de 70 chamado
A Festa dos Monstros Malucos ou algo parecido (infelizmente parou de ser reprisado e não foi lançado em vídeo ou DVD aqui no Brasil, apesar de ser
cult nos Estados Unidos - e aqui também! De vez em quando deparo com alguém que se lembra desse filme!), onde também desfilavam em
stop-motion monstros lendários do cinema, como o Lobisomem e a criatura de Frankenstein, e um cientista maluco com a cara (e voz no original) de
Boris Karloff. Além da lembrança desse filme da minha infância,
Jack também me conquistou pela originalidade da história, pelas figuras sempre instigantes de
Burton e seu universo deliciosamente maligno, e pelas canções extraordinárias de
Danny Elfman. Pena que por aqui nem todos mergulharam na onda do filme, que é realmente estranho: pode parecer infantil demais para adultos ou assustador para as crianças. Mas para fãs de filmes de animação como eu, o filme é uma preciosidade! Como resistir ao encanto de figurinhas tão simpáticas (apesar das carinhas malignas) de
Burton como essas abaixo? Que dá vontade de ter os bonequinhos em casa, ah isso dá!
Jack Skellington: (cantando
What's This?)
There's children busy throwing snowballs instead of throwing heads. There's people building toys, absolutely no one's dead!
ED WOOD
No último sábado tive uma discussão acalorada sobre cinema: seria ele arte ou não? Lógico que tentei puxar a brasa pra minha sardinha durante toda a conversa, argumentando de todas as formas possíveis que cinema é sim uma arte. Mesmo ele tendo assimilado as outras formas de arte, sendo um produto da união delas, isso não o diminui do status de expressão artística também. Daí me lembrei de filmes e seus artistas envolvidos, de como as pessoas que fazem cinema se comprometem a levar ao público seus pontos de vista, suas interpretações. É realmente algo maravilhoso o que se pode fazer em cinema e se obter de prazer em assistir filmes.
Tendo falado recentemente de um filme
trash, ruim mesmo, lembrei de um cineasta que entrou para a história como o pior de todos os tempos,
Ed Wood. Quem viu algum filme dele vai comprovar: é realmente difícil superá-lo. Se bem que tem uns e outros que cismam em cometer obras tão ruins ou piores que as dele, mas dificilmente com tanto charme... e também com uma enorme paixão. Eu tive a oportunidade de ver apenas dois filmes dele,
Glen ou Glenda? e
Plano 9 do Espaço Sideral. Entraram imediatamente na categoria
"meus filmes trash favoritos" ao lado de
Mamãezinha Querida e outros. Ambos estão disponíveis em vídeo aqui no Brasil, vale a pena conferir. Os dois foram vistos depois do lançamento de uma verdadeira declaração de amor ao cinema, que é a biografia deste incompetente diretor feita por um dos mais criativos e geniais realizadores modernos,
Tim Burton.
Ed Wood é um dos grandes filmes já feitos sobre cinema, e também uma de suas melhores homenagens.
Burton concentra sua história na década de 50, quando
Ed Wood tenta conseguir patrocínios para realizar seus filmes, nos quais ele acreditava muito. Casado, tinha obsessão por se vestir de mulher (adorava colocar um casaquinho de pele angorá) escondido da mulher que descobre essa sua mania num dia. Ele consegue arrebanhar alguns seguidores que ficavam convencidos e, aos trancos e barrancos, produz seus filmes de forma primária, com cenários pobres, interpretações risíveis, uma direção desconexa, aproveitando trechos de filmes antigos de outrem, roteiros absurdos... A sua maior conquista na trupe é o já decadente
Bela Lugosi, imortalizado na figura do Conde Drácula, já bastante debilitado pelo vício em morfina.
Ed Wood é interpretado por
Johnny Depp, numa de suas composições mais marcantes.
Bela Lugosi é encarnado por
Martin Landau, que impressiona muito. Os dois dão aos espectadores interpretações muito dignas e sensíveis. O quase fanatismo de
Wood por
Lugosi fica claro, nós vemos o quanto ele admirava o ator. O resto do elenco também é impecável, todos entraram no clima do filme.
Bill Murray está hilário como um gay que acompanha o grupo de
Wood (a cena do batismo na piscina é ótima!). Todos estão muito bem caracterizados e bastante parecidos com as pessoas que interpretam. Não foi a toa que o filme venceu os dois Oscar aos quais concorria, Ator Coadjuvante para
Landau e Maquiagem (se bem que, para mim, ele merecia figurar nas categorias principais e em outras técnicas também).
A opção de
Burton em filmá-lo em preto e branco acentua ainda mais o clima do cinema de
Wood. O cuidado com que ele recria as cenas dos filmes do homenageado (se puderem, assistam os filmes de
Ed Wood citados acima antes para poder conferir depois neste) é impressionante, ele reconstitui inclusive os defeitos dos filmes! A fotografia é belíssima, assim como a direção de arte e os figurinos que são bastante fiéis à época. A trilha sonora é uma beleza! Composta pelo mesmo
Howard Shore de
O Senhor dos Anéis, ela tem aquele clima bem anos 50, com mambinhos contagiantes unidos àquela "grandiloqüência" breguinha dos filmes de ficção e terror de então.
Ed Wood não é só o retrato de uma pessoa que amava e queria muito fazer filmes, é uma verdadeira declaração de amor ao cinema. Ao escolher justamente um paria da indústria, Burton nos mostra que o que movia aquele homem era sua paixão, mesmo ele não tendo talento algum. Chegamos a nos sensibilizar e emocionar com a dedicação de
Wood à sétima arte e o orgulho com que ele assiste seus filmes finalizados. Algumas cenas são inesquecíveis, como aquela em que ele encontra
Orson Welles. Percebemos então como
Burton consegue transmitir ao público a admiração que sente por aquele homem que amava tanto o cinema. Fazendo um filme sobre um dos piores realizadores de todos os tempos,
Tim Burton, um diretor que eu amo apesar de não acertar sempre, conseguiu dar ao mundo um dos melhores filmes da história. Uma verdadeira obra de arte!
Edward D. Wood, Jr.:
I met Bela Lugosi.
Dolores Fuller:
Why, I thought he was dead.
Edward D. Wood, Jr.:
No, he's very much alive. Well, sort of.
O SHOW DE TRUMAN - O SHOW DA VIDA
Eu tinha uma certa implicância com o
Jim Carrey. Não tinha visto nenhum dos filmes anteriores dele com exceção do
Máskara (do qual não gostei muito). Achava ele careteiro, bobo, sem graça mesmo e torcia pra que sua carreira não vingasse. Toda vez que via algum trailer de filme dele torcia o nariz, achava que lá vinha outra bomba, outra comédia bobinha e demente. Até assistir
O Show de Truman... Nesse pude constatar que ali estava um bom ator subestimado por mim.
O filme foi uma grande surpresa. Eu já havia lido as críticas internacionais a respeito dele, todas elogiosas, e me interessei bastante em vê-lo assim que estreasse aqui. Até mesmo por causa de seu diretor,
Peter Weir, que havia feito grandes filmes antes, como
Gallipoli,
A Testemunha,
Sociedade dos Poetas Mortos e Green Card - Passaporte Para o Amor. Estreou, fui ver e saí
"bolado" do cinema. Estava lá o retrato da nossa sociedade atual, onde todos somos monitorados, temos nossos movimentos e ações vigiados pela comunidade que nos cerca, censurados e guiados. Um pesadelo real.
A história do filme todo mundo sabe (quem não conhece deveria): Truman é um rapaz que tem sua vida transmitida durante 24 horas por dia pela TV, num
reality show que o acompanha desde seu nascimento. A diferença pros
Big Brothers da vida é que desta vez ele é um participante involuntário. Tudo foi esquematizado para que ele nunca soubesse que era um personagem de programa de TV. Sua cidade, seus amigos, sua família, sua esposa, seu trabalho.... TUDO
fake! São atores, cenários e situações que fazem da vida de Truman uma novela acompanhada por milhões de telespectadores. Mas o improvável acontece e ele começa a desconfiar de que há algo estranho naquele seu mundo perfeito quando cai um refletor do céu! Começa a reparar que as coisas acontecem repetidamente, que as pessoas agem de modo estranho, que alguns prédios ocultam coisas. E ele então, que foi criado de forma a nunca querer sair da cidade (o traumatizaram num acidente que o deixou com pavor de água e sempre tem algo que o impede de sair da cidade pela terra), tenta escapar de todas as formas possíveis, se rebelando e provocando estranhamento nos seus "entes queridos".
Saí do cinema arrepiado e perplexo... Acabara de assistir um filme maravilhoso que me assustou diante de tanto realismo em meio a um fato totalmente fictício. Não vivemos sob uma redoma com clima controlado e milhares de câmeras escondidas, mas ainda assim somos obrigados a seguir regras de conduta e comportamento. E surgiu a paranóia também: e se meus amigos e familiares também estiverem fingindo algo, simulando uma realidade e sentimentos que não existem? Fiquei durante algumas horas matutando coisas... O filme me despertou vários grilos e me fez mudar algumas opiniões que tinha a respeito de coisas. Ou seja,
O Show de Truman é um exemplo do que o cinema é capaz de fazer de melhor, divertir e fazer refletir.
Apesar de celebrado pela crítica e ter feito sucesso de público, o filme foi ignorado no Oscar, recebendo apenas indicações para Melhor Direção, Roteiro Original e Ator Coadjuvante (
Ed Harris como o criador do programa). Uma injustiça, já que ele foi um dos melhores do ano (1998, aquele mesmo em que fomos roubados por um italiano palhaço e por uma loirinha sem sal).
Jim Carrey estava perfeito no papel, não havia outra possibilidade de escolha a não ser ele. A direção é uma coisa de louco, com câmeras simulando estarem escondidas em lugares totalmente insólitos, como por trás do painel de um rádio de carro; os atores em sintonia, todos ótimos; um roteiro excelente muito bem conduzido; a direção de arte que faz aquele mundo perfeito parecer real e artificial ao mesmo tempo; a trilha sonora muito bem utilizada. Mas como o Oscar não é nada mais que um prêmio comercial e não pelos méritos artísticos, a não-indicação e, conseqüentemente, a não-premiação de
Truman nas categorias em que merecia não fez dele um filme menor. Muito pelo contrário, este é um exemplo de filme inesquecível e sempre atual. Em tempos de
Big Brother,
Casa dos Artistas e congêneres,
O Show de Truman se torna mais notável ainda por mostrar como a mídia e a sociedade exercem poder sobre o comportamento, as atitudes e os sentimentos das pessoas que tanto participam quanto assistem. E é também uma alegoria sobre o quão uma sociedade manipula as vidas das pessoas, podendo transformá-las de humanos em seres autômatos, incapacitados de ter atitudes próprias, sistematizados como engrenagens de uma grande máquina que serve ao poder de uns poucos. Ou seja,
O Show de Truman é um pesadelo obrigatório para quem gosta de bom cinema, entretendo e fazendo pensar. Além de demonstrar que, por trás daquela enorme boca elástica, existe um bom e admirável ator...
Truman Burbank:
Good morning! And in case I don't see you: good afternoon, good evening and good night!
MAMÃEZINHA QUERIDA
Alguns filmes fazem parte de nossas vidas por motivos estranhos... Marcam por um detalhe ou outro, coisas que chamam a nossa atenção. Nem sempre quer dizer que esses filmes são bons.
Mamãezinha Querida é um deles. O vi pela primeira vez (lógico que revi várias outras) numa sessão noturna da Globo. Eu tinha mais ou menos 14, 15 anos e me diverti horrores com essa ótima comédia involuntária.
O filme é uma adaptação da biografia não-autorizada da atriz
Joan Crawford escrita por sua filha adotiva
Christina. Lógico que a garota aproveitou a morte da mãe e promoveu uma grande lavagem de roupa suja, vomitando todas as suas mágoas pela
Joan (que tinha mesmo cara de maléfica, com aquelas sobrancelhas arqueadas). Logo no início temos uma verdadeira aula de estética de dar inveja a qualquer programa feminino de TV que vende produtos milagrosos de rejuvenescimento. A obcecada da
Joan, aqui vivida pela
Faye Dunaway (parecidíssima e tão canastrona...), mergulha a cara em gelo, passa cremes, lixa tudo o que pode pra manter a sua jovialidade. Esse ritual matinal é diário. Querendo compensar o vazio que sente em sua vida entre um gole e um amante, a atriz resolve adotar crianças, primeiro
Christina e depois Christopher (como era criativa ela, não?). Mas parece mais que ela os adotou para fins de tortura do que para alimentar seu instinto materno.
O que vemos ao longo do filme é uma demonstração de crueldade de fazer qualquer instituição de proteção a menores se remoer de raiva. São surras, castigos e crises de histerismo dignos de novela mexicana. Imaginem Odete Roitmann adotando as crianças de
Carrossel... é pinto! A pobre coitada da
Christina (uma garotinha loirinha que não para de choramingar) passa pelos mais diversos percalços: tem seu cabelo picotado pela mãe histérica, tem que limpar o banheiro depois de uma crise do monstro materno, apanha de cabide de arame, é obrigada a ficar na mesa enquanto não comer a refeição toda... isso tudo tendo ainda que chamar a mãe pelo singelo apelido de
"mamãezinha querida" (ai dela se não a chamasse assim, seria capaz de perder todos os dentes). Fora as cenas hilárias como aquela em que
Joan recebe jornalistas em sua casa após receber seu Oscar, posando de mãe perfeita ao lado dos pimpolhos, entre muitas outras.
O filme, que era pra ser um drama, acaba sendo mesmo uma comédia. Tudo bem, as crianças podem até ter sofrido nas mãos da maldosa Joan, mas o que o filme mostra é quase a personificação da Madame Medusa de
Bernardo e Bianca (figura abaixo). Até que elas se parecem um pouquinho mesmo... É uma daquelas obras
trash,
camp, que acabam conquistando fãs pela ruindade, virando
cult não pelos méritos, mas pelo mau gosto mesmo.
E eu, que acreditava ser uma das únicas criaturas que já tinha assistido esse filme mais de uma vez (sempre com um enorme prazer, diga-se de passagem), acabo descobrindo, com o passar do tempo, que conheço mais gente que adora o filme (Deise, Lucimar, Ricardo... é uma homenagem a vocês!). Principalmente a versão dublada, que torna mais engraçadas ainda as cenas de ataques de raiva de
Joan. Como esquecer a cena do quarto, quando a hedionda mãe descobre que sua filha guarda seus vestidos caros pendurando-os em cabides de arame...? Nada melhor do que escutar, em bom e claro português, ela esbravejando:
"cabides de arame! Cabides de arame! Eu te compro os vestidos mais caros e você os pendura em cabides de arame?!" (esta fala foi sintetizada aqui, mas você pode lê-la na integra, em inglês, no final deste
post). E lá vai a megera dar uma surra com os malditos cabides na coitada da filha, e a gente morrendo de rir do lado de cá da tela... Prestem atenção na programação de TV; assim que reprisarem
Mamãezinha Querida assistam, coloquem pra gravar e divirtam-se muito! Programa imperdível!
P.S.: apesar de ser uma biografia, o filme passa longe de muitas coisas da vida de
Joan Crawford, como a sua famosa rivalidade com
Bette Davis. Mas o alcoolismo, a promiscuidade, os ataques de estrelismo estão lá...
Joan Crawford:
No... wire... hangers! What's wire hangers doing in this closet when I told you: no wire hangers EVER? I work and work 'till I'm half-dead, and I hear people saying, "She's getting old." And what do I get? A daughter... who cares as much about the beautiful dresses I give her... as she cares about me! What's wire hangers doing in this closet? Answer me! I buy you beautiful dresses, and you treat them like they were some dishrag. You do! Three hundred dollar dress on a wire hanger! We'll see how many you've got if they're hidden somewhere. We'll see... we'll see. Get out of that bed! All of this is coming out! Out! Out! Out! Out! Out! Out! You've got any more? We're gonna see how many wire hangers you've got in your closet. Wire hangers, why? Why? Christina, get out of that bed! Get out of that bed! You live in the most beautiful house in Brentwood and you don't care if your clothes are stretched out from wire hangers. And your room looks like some two-dollar-a-week furnished room in some two-bit back street town in Okalahoma! Get up! Get up! Clean up this mess!
CLIENTE MORTO NÃO PAGA
Quando citei os filmes de 1982 (que eu considero um ano generoso em filmes de qualidade), cometi uma gafe e deixei de fora um que eu acho genial. E, parando pra pensar, além de
Cliente Morto Não Paga, tem vários outros do
Steve Martin que eu adoro. Daí me toquei que eu, que torço o nariz pra algumas comédias, sou quase um fã do cara! Se bem que entre os filmes que ele trabalha e eu adoro tem um que está longe de ser comédia, o
Grand Canyon - Ansiedade de Uma Geração. De vários deles pretendo falar aqui futuramente, como
Os Picaretas,
Os Safados,
Parenthood (que aqui no Brasil recebeu o péssimo título de
O Tiro Que Não Saiu Pela Culatra; prefira o original),
A Pequena Loja dos Horrores,
O Príncipe do Egito (onde ele dubla o sacerdote Hotep),
Um Espírito Baixou em Mim,
O Homem Com Dois Cérebros,
O Panaca... Nossa, eu não fazia mesmo idéia de que o
Steve Martin era um ídolo pra mim!
Este
Cliente Morto... é mais uma reunião de
Martin com o diretor e ator
Carl Reiner (visto recentemente na refilmagem
Onze Homens e Um Segredo, numa ótima interpretação por sinal, e pai do também diretor
Rob Reiner, de
Louca Obsessão e
Harry e Sally - Feitos Um Para o Outro). Aliás,
Martin deve a
Reiner a sua fama, já que foi com
O Panaca, sob sua direção, que ele despontou pro estrelato. Voltando ao filme em questão,
Cliente Morto... é uma das comédias mais engenhosas e inteligentes já produzidas. O roteiro de
Martin,
Reiner e
George Gipe é uma homenagem aos filmes policiais da década de 40, os famosos filmes
noir.
Martin é um detetive particular, Rigby Reardon, contratado por uma bela mulher (
Rachel Ward) para desvendar o caso da morte de seu pai, um renomado cientista e fabricante de queijos(!). Seguindo as pistas, o detetive encontra várias figuras famosas no decorrer da investigação:
Humphrey Bogart,
Ava Gardner,
Ray Milland,
Charles Laughton,
Alan Ladd,
Veronika Lake (que foi também a inspiração para a Jessica Rabbit),
Barbara Stanwyck, entre outras tantas celebridades (a maioria já morta na época) em trechos de seus filmes clássicos do gênero.
O filme foi meticulosamente montado unindo cenas de outros filmes antigos, onde aparecem os figurões dos
noir, permitindo que os atores pudessem "contracenar" e "interagir" com eles (sem o uso de efeitos digitais, inexistentes na época, como em
Forrest Gump). Todos os detalhes da produção tomam o cuidado para que a sensação de unidade entre os
takes de filmes antigos e os atuais fosse a mais realista possível e, para isso, utilizaram o mesmo estilo narrativo no roteiro, na fotografia (com a iluminação e angulação da câmera), na direção de arte e figurinos (sempre tentando recriar a atmosfera da década de 40) e inclusive na trilha sonora, quando convidaram o veterano compositor
Miklós Rózsa para se encarregar da música típica da época. É uma brincadeira divertidíssima e muito inteligente, onde você tem o prazer de assistir
Steve Martin contracenando com figuras lendárias do cinema entre diálogos absurdos e hilários e uma história cheia de clichês dos filmes
noir, como a narração em
off, o trauma de infância do detetive, as traições, as reviravoltas e a ambientação dita anteriormente.
Embora, por incrível que pareça, exista um preconceito enorme com relação aos filmes em preto e branco, esse é um que vale a pena assistir várias vezes, tanto para se divertir diante da demonstração do talento e genialidade do roteiro (e porque não do
Steve Martin?), como também para tentar identificar de que filmes são as cenas antigas em que os ícones da Hollywood
noir aparecem (e dar vontade de ver e rever esses filmes).
Cliente Morto Não Paga não é somente um ótimo passatempo, mas também uma excelente aula de cinema!
Rigby Reardon:
All dames are alike: they reach down your throat and they can grab your heart, pull it out and they throw it on the floor, step on it with their high heels, spit on it, shove it in the oven and cook the shit out of it. Then they slice it into little pieces, slam it on a hunk of toast, and serve it to you and then expect you to say, "Thanks, honey, it was delicious."
DONNIE DARKO
Alguns filmes são bem difíceis de se classificar num gênero específico. Outros ganham logo o status de
cult.
Donnie Darko é um filme que incorpora os dois casos. Ficou inédito aqui nos cinemas no Brasil (Deus sabe porque) e foi lançado sem muito estardalhaço em vídeo e DVD no ano passado. Eu havia visto o trailer pela internet antes do lançamento do filme nos EUA e fiquei bastante curioso. Qual não foi minha surpresa ao ler na
Set que ele estava sendo lançado diretamente em vídeo e DVD? Assim que o encontrei na locadora, não hesitei e o aluguei, e tive então uma agradabilíssima surpresa. A minha curiosidade em ver o filme foi saciada e as expectativas foram superadas;
Donnie Darko é um filmaço!
O cinema já contou várias histórias sobre as agruras de adolescentes e seus ritos de passagem para a vida adulta. Bicho complicado, o jovem volta e meia é retratado como um rebelde sem causa. Nosso herói não foge à regra. Mas com um "quê" diferente... O ótimo (e sagitariano!)
Jake Gyllenhaal é o personagem-título, um jovem problemático, filho de uma típica família suburbana americana, daqueles que vive fazendo coisas estranhas, freqüenta terapeuta pra ver se toma um rumo na vida, tem seus pais chamados no colégio... Num belo dia cai uma turbina de avião em seu quarto, mas por sorte ele havia dormido fora de casa e escapa da morte. Nessa noite, ele havia tido uma de suas crises de sonambulismo e durante ela teve também a visão de um coelho gigante (e horroroso) chamado Frank lhe dizendo que o mundo acabaria em 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos (!). A partir de então o tal do Frank volta constantemente para dar ordens ao rapaz para cometer atos de vandalismo e rebeldia. Será Donnie um esquizofrênico, Frank realmente existe, as experiências pelas quais o rapaz passa são reais ou apenas ilusões?
O filme é conduzido de forma que a gente fica querendo saber o que vai acontecer até o final, tratando de assuntos como a já citada condição rebelde da adolescência, viagens ao tempo, educação, filosofia, charlatanismo e fanatismo religioso, política (o filme se passa nas vésperas da eleição presidencial de 1988 nos EUA), psiquiatria, numa mistura engenhosa e atraente. Você pode até achar que vai ficar perdido diante de tanta informação, que tá tudo meio confuso, mas a conclusão é satisfatória, explicativa e fascinante. Dirigido e escrito pelo jovem
Richard Kelly (tomem nota desse nome, tem mais três filmes dele vindo em breve) que o conduz perfeitamente. O elenco é ótimo, até mesmo o
ghost Patrick Swayze fazendo um guru espiritual está bem. Como curiosidade, a irmã mais velha de Donnie é mesmo irmã do ator
Jake Gyllenhaal,
Maggie;
Drew Barrymore, que faz uma professora do colégio é uma das produtoras; e o filme dá a chance de revermos a veterana
Katharine Ross, mocinha de
Butch Cassidy, no papel da psiquiatra. Os diálogos são bem-humorados e geniais, a montagem é ótima e a ambientação é perfeita. As roupas, decoração, referências ao universo
pop da época (como os Smurfs) e músicas estão lá, com destaque para uma nova releitura de
Mad World do
Tears For Fears que ficou maravilhosa (baixem! Ela é interpretada por um tal de Gary Jules). Fora uma música intitulada
Ave Maria que toca nos créditos finais, linda e arrepiante...
Ou seja, não percam de jeito nenhum a chance de ver
Donnie Darko. Ficamos privados de ver este grande filme no cinema, mas, pra compensar, corram pra locadora e aluguem essa preciosidade. E depois me digam se esse é ou não um filme digno de figurar nas listas de
cult movies. Assim como Donnie, todos nós já passamos pela fase de nos sentirmos capazes (e no direito), e ao mesmo tempo impotentes de realizar qualquer coisa, de não compreender o que está ao nosso redor e com uma vontade tremenda de mudar (e descobrir) nossos destinos. Se é que essa fase passa mesmo...
P.S.: sugiro também que visitem o site oficial do filme,
www.donniedarko.com . Além de muito bem feito, é uma experiência complementar do filme. Se quiserem, visitem antes de assistir, mas o melhor mesmo é ir lá depois.
Donnie:
How can you do that?
Frank:
I can do anything I want. And so can you.
CENTRAL DO BRASIL
O cinema nacional ficou durante muitos anos conhecido como aquele onde só se falava palavrão, só tinha sacanagens, com o som péssimo e incompreensível, atuações amadorísticas... Nos meus longos anos trabalhando em locadoras, sempre escutava quando indicava algum filme brasileiro:
"ih, não gosto de filme nacional, só tem pouca vergonha e é muito mal feito". Nossos pais e avós pegaram uma época em que filmes nacionais atraiam tanto público quanto os estrangeiros (às vezes até mais). Eram os áureos tempos da Atlântida e Vera Cruz. Mas eles não conseguiram se manter. Surgiu então o
Cinema Novo, com
Glauber,
Nelson Pereira dos Santos e cia e o
Cinema Marginal, mas eram filmes considerados "intelectuais" (até hoje e, confesso, muitos deles eu realmente não suporto - corro o risco de ser linchado pelos colegas de faculdade e conhecedores de cinema cada vez que me coloco desta forma). Na década de 70 veio a onda das porno-chanchadas e, embora ainda se fizesse filmes de qualidade, o cinema brasileiro acabou ficando com a fama de pervertido e mal-feito. Na década de 80 o cinema foi um bravo lutador, com seus poucos resistentes que conseguiam fazer algo que fosse visto com bons olhos. O colapso
collorido quase sepultou o cinema nacional, mas em 1995 dois filmes foram responsáveis pela já famosa retomada:
Carlota Joaquina, Princesa do Brasil e
Menino Maluquinho - O Filme. Há muitos anos desacreditado, esses dois filmes fizeram com que o público voltasse a acreditar que o cinema nacional pudesse gerar boas obras. O Brasil começou a ser bem-visto também no exterior. Até
O Quatrilho, nossos filmes ficavam circulando por festivais alternativos e premiações de críticos, até conquistando alguns prêmios mundo afora, mas este foi o que abriu as portas do nosso cinema para o
mainstream de novo: décadas depois de
O Pagador de Promessas, o Brasil voltou a figurar na lista de indicações ao Oscar.
Em 1998
Walter Salles realizou
Central do Brasil, responsável pela maior visibilidade que um filme nacional teve até então. Ele foi conquistando prêmios mundo afora, tanto pelo filme como para
Fernanda Montenegro, culminando então com as indicações ao Oscar para Melhor Filme Estrangeiro e, fato inédito para nós, Melhor Atriz. Foi uma grande vitória, como já se tornou lugar-comum mencionar, figurar entre os finalistas, mas a derrota foi difícil de engolir. Num dos maiores vexames da Academia de Hollywood,
Central do Brasil perdeu nas duas categorias em que concorria para
A Vida é Bela e
Gwyneth Paltrow por
Shakespeare Apaixonado respectivamente (com certeza, incluindo a premiação do
Roberto Benigni como Melhor Ator, esse foi um dos maiores micos da história do prêmio). Mas o que importa é que apesar de não termos ganho nada, o mundo pôde ver uma estória sensível e conhecer uma das maiores atrizes do planeta.
Dora (
Fernanda Montenegro) é uma mulher que sobrevive escrevendo cartas na Central do Brasil para analfabetos que querem mandar notícias para seus familiares Brasil afora. Nem sempre elas são enviadas: Dora e sua amiga Irene (
Marília Pêra, também extraordinária) selecionam aquelas que irão para seus destinatários. Por obras do destino, uma das "clientes" de Dora morre atropelada deixando seu filho Josué órfão. Meio que contra a sua vontade, Dora dá abrigo a Josué, que sonha em encontrar seu pai desconhecido no Nordeste. A índole de Dora a leva a vender o garoto para traficantes de crianças, mas Irene, que funciona meio como um Grilo Falante, a faz se arrepender e resgatar Josué e levá-lo para realizar seu sonho. Fugidos dos traficantes, sem dinheiro, os dois embarcam numa viagem pelo interior do Brasil, e também para uma jornada pelo interior de suas almas. Aos poucos Dora percebe o vazio da sua vida e aprende a valorizar aquilo que ela não sabia sentir antes, a compaixão e a solidariedade. Durante a viagem, Dora quebra a casca que a recobria durante toda a sua vida e se descobre humanizada. Encontra sua redenção, vê que afinal, depois de décadas de existência, ainda é capaz de realizar algo de bom em sua vida.
Difícil imaginar escolhas melhores.
Fernanda Montenegro nos dá uma das interpretações mais magistrais já vistas numa tela. É um trabalho de entrega primoroso, digno de figurar entre as melhores atuações de todos os tempos.
Marília Pêra dá à sua Irene uma simpatia, ingenuidade e encanto também com sensibilidade e maestria. O garoto
Vinícius de Oliveira é a personificação do Josué e o resto do elenco de apoio também é extremamente competente. Fora isso,o filme nos dá um roteiro perfeito (com um único detalhe que me incomoda, mas não estraga a grandiosidade da obra: com a lei que obriga os menores de idade a viajar somente com autorização do Juizado, como Dora consegue carregar Josué pra cima e pra baixo sem nenhum entrave?), uma fotografia esplêndida, a direção precisa de
Walter Salles e a inesquecível e já clássica música de
Jacques Morelembaum e
Antonio Pinto.
Tenho uma crítica ao cinema nacional, e acho que ainda devo demorar um pouco a me livrar dessa cisma: quando nossos cineastas vão parar com a mania de fazer filmes somente sobre miséria, marginais, nordeste, figuras históricas e adaptações literárias (salvo algumas exceções)? Graças a Deus, ainda aparecem obras que fogem a essas regras, e outras que, ainda que contenham algumas dessas características, conseguem apresentar algum diferencial (como
Cidade de Deus). Mesmo que
Central do Brasil seja um filme que tenha alguns desses temas, ainda assim tivemos o enorme prazer de assistir uma obra original e única, que nos apresentou personagens marcantes e uma estória que conseguiu sensibilizar o mundo inteiro diante da magnitude deste verdadeiro marco do cinema mundial. Quantas e quantas lágrimas devem ter escorrido durante a carta final de Dora, ela que vivia de colocar no papel os sentimentos alheios, no final do filme se desnudando e declarando enfim o que se passava em seu coração.
P.S.: tentei, tentei, mas não consegui encontrar em lugar nenhum da internet algumas frases do roteiro do filme. Infelizmente vou ficar devendo a citação desta vez. Pensei até em colocar alguma frase que me lembre de cabeça, mas gostaria de citar algo fielmente transcrito. Aceito colaborações!
A MORTE LHE CAI BEM
Certos filmes são incompreendidos e renegados ao fiasco nas bilheterias. Principalmente aqueles que andam pela linha tênue de um gênero como a comédia de humor negro, que acabam atingindo uns poucos que mergulham nas bizarrices e se divertem com o que se mostra nas telas. Comédia é realmente um gênero muito difícil, cheio de sub-gêneros e nem sempre agrada a todo mundo. Eu por exemplo abomino certas comédias do estilo pastelão, como
Quem Vai Ficar Com Mary, que assisti sem ao menos dar um sorriso amarelo, mas adoro a série
Corra Que A Polícia Vem Aí. Vá entender...
Em 1992 um dos meus diretores favoritos,
Robert Zemeckis (ô cara criativo...) reuniu duas grandes atrizes e ótimas comediantes,
Meryl Streep, que ainda estava tentando se firmar no gênero na época, e
Goldie Hawn, essa já reconhecida pelas comédias, em
A Morte Lhe Cai Bem. As duas por pouco não trabalharam juntas antes num outro projeto,
Thelma & Louise, para o qual eram as primeiras escolhas. Infelizmente nesta união o público não se interessou muito e o filme fracassou. Deixaram de ver uma ótima comédia que apresentava uma das maiores críticas à febre do culto ao corpo e à busca incessante pela beleza eterna.
Meryl Streep é Madeleine Ashton, uma decadente e veterana estrela casada com o cirurgião plástico Ernest Menville (
Bruce Willis inacreditavelmente ótimo no papel). Ela tem uma antiga rivalidade com a escritora e ex-obesa Helen Sharp (
Goldie Hawn), de quem roubou o noivo. Após emagrecer algumas dezenas de quilos, Helen reaparece na vida de Madeleine e esta se sente ameaçada. Com razão, pois os planos de Helen são matar a rival e recuperar seu antigo amor. O que uma não sabe da outra é que ambas tomaram uma poção mágica garantindo-lhes vida eterna e beleza jovial.
Começa então a guerra entre as duas e um desfile espetacular de efeitos visuais extraordinários e inéditos até então: cabeças reviradas, corpos perfurados, ossos quebrados... Mas nada sanguinário como na
Paixão de
Gibson. A violência é aquela típica dos desenhos animados, onde as personagens sofrem atrocidades que desafiam todas as leis da física e biologia e ainda assim continuam vivas. Merecidamente, o filme conquistou o Oscar de Efeitos Visuais.
Zemeckis destila seu veneno contra a indústria da estética mostrando que, para aquelas mulheres, a beleza é algo tão tolamente importante que elas acabam deixando de lado outros valores. As duas, impedidas de morrer por causa da poção, são obrigadas a vagarem feito zumbis se retocando como esculturas vivas se deteriorando com o tempo. O filme conta com o esmerado capricho técnico típico do diretor, com seu visual gótico, a movimentação elaborada da câmera, o bom uso da música (o que é aquele número início, onde Madeleine encena uma versão musical de
O Doce Pássaro da Juventude? Morri de rir da canção!) e a ótima direção de atores. Não só o trio central está perfeito e muito à vontade (a impressão que dá é que todos se divertiram muito durante a produção), mas também os coadjuvantes, como o diretor
Sidney Pollack que faz o médico que examina Madeleine após sua queda da escada. E o roteiro... Rápido, ágil, cheio de sacadas - como Helen que chama ironicamente Madeleine de
Mad (louca) e esta a chama de
Hell (inferno).
Como eu sou fã de filmes de humor negro, adorei esta divertida brincadeira. Assisti duas sessões seguidas dele no extinto (infelizmente) Metro Boavista e mais algumas vezes depois em vídeo e na TV. Uma grande diversão pra ser redescoberta e uma crítica ácida e bem-humorada àquelas pessoas que caem no ridículo como algumas peruas que se enchem de plástica e jovens que começam precocemente tratamentos de rejuvenescimento. Na vida real, a deterioração é tanto física como no filme como moral...
Helen:
Oh, gosh, I'm glad you came. I didn't know if you would. I spoke to my PR woman and she said Madeleine Ashton goes to the opening of an envelope. Oh, those people can be so cruel!
Madeleine:
Mmmm.
Helen:
I fired her.
Madeleine: [agradecida]
Oh!
Helen:
Well, I almost fired her...
A PAIXÃO DE CRISTO
Meninos, eu vi! Depois de tanto ler e escutar a respeito, fui ver finalmente o filme mais polêmico dos últimos anos. E
ADOREI! Lógico, não foi nada fácil assistir àquelas atrocidades, mas acho tudo o que está no filme bastante justificável. Pouquíssimas vezes o cinema viu a trajetória de Jesus Cristo de uma forma tão realista como neste (que eu me lembre, só
Scorsese chegou perto desse realismo no seu também polêmico
A Última Tentação de Cristo).
Muito foi alardeado a respeito da violência do filme. Vocês acham que pode ter sido muito diferente do que ele mostra? Se não foi pior... Está lá, da forma como está escrito. A crueldade das pessoas, civis e militares, que humilham e castigam Jesus. Aliás, não vi nada no filme que pudesse denegrir a imagem de determinados grupos que se sentiram ofendidos: o que está lá é o que está na Bíblia.
Mel Gibson foi muito corajoso ao mostrar que, como hoje, o jogo de interesses políticos prevalecia, que as discordâncias religiosas sempre renderam conflitos, que a gana pelo poder é a mola-mestra da sociedade. Quem surge pregando idéias contrárias à classe dominante tem que ser punido e eliminado. Sempre foi assim, até hoje, e Deus sabe até quando será.
Numa conversa via ICQ com uma amigona (saudades de Martchenga....) ela disse que estava "antipatizada" com o filme por causa do discurso "religiosamente moralista" do
Mel Gibson. Realmente, certos pontos de vista que ele assume em entrevistas são muito discutíveis, assim como todo o fanatismo religioso que não suporta as diferenças ideológicas.
Gibson, assim como seus detratores, se apóia na religiosidade para sustentar a intolerância a certos grupos. Acaba se contradizendo diante de sua obra. Mas aí é julgar uma pessoa, quando a questão é seu filme. E ele (o filme) é um trabalho digno e admirável.
Que coisa magnífica poder escutar Jesus e todo o resto do elenco falando as línguas da época! Obviamente seria um tanto difícil assistir o filme sem as legendas (como era da vontade de seu diretor), nem tanto pelas passagens clássicas, mas pelos diálogos entre os personagens, como Cláudia e Pilatos, por exemplo. As línguas originais ajudam a reforçar o realismo do filme. E que realismo... Você se sente transportado para a época: a luz, a direção de arte, os figurinos, a maquiagem... Você sente o cheiro do sangue, do suor, a secura poeirenta. Diferente de outros filmes, as pessoas não usam roupas coloridas, os palácios não são de mármore reluzente, não há aquela limpeza artificial... Os dentes são podres, as unhas imundas, as construções arcaicas, as vestes rústicas.
Chega a parte do castigo, e então começa o banho de sangue. Difícil agüentar ver tanta violência física, mas pela primeira vez um diretor teve a coragem de mostrar aquilo que nenhum outro teve: um Jesus cheio de feridas abertas pelo corpo, encharcado de sangue, humanizado mesmo. Aliás, como a Jane disse, todos os clichês estão no filme (principalmente nos flashbacks: basta ele olhar um objeto que temos uma lembrança de seu passado), mas eles têm um propósito: de reforçar a figura humana de Cristo. Um Jesus que brinca com sua mãe, que tem fome e sede, age como gente normal. E Maria também, apesar de saber de todas as agruras pelas quais o filho ia passar, ainda assim sente a dor maior de uma mãe, a de ver o filho sofrendo. Seu olhar por vezes não suporta aquilo que assiste, mas ainda assim ela quer permanecer até o final ao lado do filho. Só uma mãe mesmo tem a coragem, desprovida de nojo, de beijar os pés ensangüentados de um filho.
Não sou religioso, não freqüento igrejas, contesto muita coisa. Mas ver
A Paixão de Cristo mexeu muito comigo. Nem tanto por ter visto justamente na época da Páscoa, mas por ter assistido uma obra corajosa e digna que mostra pelo o que um homem venerado até hoje passou há 2004 anos e constatar que o ser humano não mudou em nada: somos seres cruéis e intolerantes até hoje e parece que os ensinamentos de Jesus não atingiram a maior parte das pessoas. Mais do que um espetáculo, esse filme deveria ser visto como uma lição. E nesse ponto ele é muito bem sucedido, ao deixar de lado a hipocrisia e o medo mostrando um mundo pasteurizado e limpo e jogar na cara dos que o assistem que a realidade foi, se não tão sanguinária, suja e tosca quanto a mostrada, algo bem próximo do que vemos no filme. E quem sabe a partir de então pararmos pra refletir um pouco e vermos que a violência que tantos julgam nesse filme ocorre até hoje numa esfera bem maior, nem sempre dessa forma, mas ao permitirem até hoje que pessoas não tenham acesso à saúde, que morram de fome, que sejam subjugadas pela raça, pela crença, pela opção sexual, pela ideologia e até mesmo pela nacionalidade. Assistir ao Jornal Nacional e ver as notícias do nosso país e do mundo é tão revoltante quanto ver o Cristo de
Gibson ser violentamente açoitado. Com certeza
A Paixão de Cristo não é um filme pra ser ver como passatempo comendo pipoca e tomando refrigerante, nem é daqueles que você sai dizendo que gostaria de ver de novo. Eu acho que uma vez só basta. Mas certamente esta única vez será uma experiência inesquecível, dolorida e gratificante.
Jesus:
Eli, Eli, lamma sabactani.
JULES E JIM - UMA MULHER PARA DOIS
O cinema francês é sempre do tipo "ame-o ou odeie-o". Muito conhecido por ser o favorito dos intelectuais e adoradores de cinema alternativo, de vez em quando surge algum filme que cai nas graças do povão, como
O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Eu mesmo confesso: tenho alguma resistência aos franceses, principalmente os da era da
Nouvelle Vague. Esse movimento, surgido na década de 50, nasceu de críticos que quiseram fazer um cinema mais autoral, diferente do esquemão de estúdio propagado pelos americanos. Foi quando surgiram figuras como
Jean-Luc Godard,
Alain Resnais e
François Truffaut, entre outros. Este último é justamente o que mais simpatizo, tendo feito alguns filmes muito queridos e inesquecíveis, como
A Noite Americana,
Fahrenheit 451 e
Jules e Jim - Uma Mulher Para Dois.
Jules e Jim foi um filme que me chocou quando o assisti pela primeira vez. É uma daquelas estórias sobre gente comum que eu tanto gosto e me identifico, que vivem e sentem cada momento de suas vidas intensamente. Jules (
Oskar Werner) é um austríaco que faz amizade com o francês Jim (
Henri Serre). Ambos acabam se apaixonando por Catherine (
Jeanne Moreau) e ela acaba se casando com Jules. Finda a Primeira Grande Guerra, os três se reencontram na Alemanha e Catherine se descobre apaixonada por Jules. O triângulo amoroso segue sem afetar a amizade entre os três, mas (pra variar) o destino lhes reserva um final trágico.
Assim como
Fim de Caso (com o qual tracei alguns paralelos num trabalho de faculdade),
Jules e Jim mostra com muita sensibilidade as facetas do amor que as pessoas são capazes de sentir. Não só o amor passional, mas também o fraternal, a amizade a compreensão, o respeito pelo sentimento do próximo.
Truffaut desenvolve seu filme demonstrando um carinho pelos personagens, apontando sempre o lado humano de cada um, suas virtudes e defeitos, com uma narrativa simples, acessível e charmosa, que torna
Jules e Jim um filme obrigatório para quem curte um bom cinema com uma bela estória, mesmo ele sendo ele francês - vale a pena deixar o preconceito de lado e mergulhar nessa linda ode ao amor e amizade...
Jim:
We played with life and lost
UM CORPO QUE CAI
As pessoas têm mania de falar que filme clássico é só aquele que foi produzido há mais de 40 anos. Geralmente quando se vai numa locadora e se quer pegar um filme mais antigo, você só encontra na sessão denominada
"Clássicos". Discordo; para mim, alguns filmes já nascem clássicos, como alguns dos que já comentei aqui neste
blog. Não é a idade que o denomina assim, e sim sua qualidade. O que pode ser um clássico para uns, pode não ser para outros.
Vamos então relembrar de um que é uma unanimidade, tanto para os que utilizam o adjetivo "clássico" na forma generalizada, como para aqueles que o usam como eu:
Um Corpo Que Cai de
Alfred Hitchcock. A começar pelo título... que genial foi a pessoa que transformou "vertigem" como o original em um título muito mais atraente e instigador! Este filme é considerado uma das obras-primas do mestre do suspense (quantos adjetivos!) e não é por menos.
Um Corpo Que Cai é realmente uma das obras mais charmosas e imortais de
Hitchcock. A começar pelos créditos iniciais.
Na abertura temos um espetáculo visual proporcionado pelo grande
Saul Bass, um
designer gráfico que realizou vários trabalhos para o cinema, entre aberturas, cartazes (como o que está acima ilustrado) e logotipos. Se quiser conhecer melhor sua obra, visite o site
www.saulbass.net e veja algumas das coisas que ele fez. Neste, ele trabalha com mandalas coloridas que se movimentam ao som da inesquecível música de
Bernard Herrmann (da qual falarei mais tarde). Logo depois o filme já começa em plena ação, com uma perseguição por telhados de prédios. O detetive John 'Scottie' Ferguson, interpretado por
James Stewart, o ator favorito de
Hitch, sofre de medo de alturas e acaba se acidentando. Auxiliado por sua amiga Midge Wood (
Barbara Bel Geddes, uma gracinha que ficou anos mais tarde conhecida como a matriarca da família Erwing da série
Dallas), ele se recupera do incidente. Mas o sossego acaba quando ele é contratado por um amigo para seguir sua esposa Madeleine (
Kim Novak, linda e perdoavelmente canastrona e, diz a lenda, sofreu um bocado nas mãos do diretor, que queria sua musa
Grace Kelly no papel), que tem tido um comportamento muito estranho. Ao começar sua investigação, o inesperado acontece: Scottie acaba se apaixonando pela mulher do amigo. Como não vivemos num mundo perfeito, nem no cinema, a morte chega, leva Madeleine e Scottie se vê sozinho de novo. Até o dia em que conhece Judy Barton (a mesma
Kim, desta vez com os cabelos castanhos) e nota nela uma incrível semelhança com sua falecida amada. A obsessão de Scottie força a coitada a pintar suas madeixas e se vestir como Madeleine, deixando-a igualzinha a morta. Ele pensa então que finalmente vai poder reviver o grande amor da sua vida, mas aos poucos vai descobrindo que as aparências enganam e as coisas não eram bem como ele imaginava.
O filme é um primor. Tecnicamente perfeito, um roteiro instigante, a direção precisa, uma maravilha.
Hitchcock trabalha com seus colaboradores habituais, entre eles o já mencionado compositor
Herrmann. A música em
Um Corpo Que Cai é um caso à parte: desde a abertura, passando pela genial seqüência no museu, depois no pesadelo de Scottie, ou ainda na cena em que ele e Madeleine se beijam à beira de um lago... inesquecível. Uma das composições mais bonitas e marcantes já feitas pro cinema.
Um Corpo Que Cai foi copiado e citado inúmeras vezes.
Brian De Palma por exemplo reedita a seqüência do museu em
Vestida Para Matar. E o truque da vertigem (aquelas cenas em que temos o ponto de vista de Scottie, onde a imagem parece se esticar), imortalizado aqui, foi repetido inclusive em
Poltergeist! O efeito é simples de se obter: basta estar em movimento com a câmera (para frente ou para trás) e dar um
zoom no sentido oposto do movimento. Qualquer um pode fazer em casa com uma simples câmera!
No início da década de 80 o filme foi relançado nos cinemas junto com outros quatro de
Hitchcock. Foi a oportunidade que muita gente teve de redescobri-lo. Mas na época, ainda novinho, apesar de ver o trailer nas salas de exibição, eu não pude assisti-lo no cinema. Matei a curiosidade anos mais tarde, quando ele foi lançado em vídeo. Foi um caso de amor à primeira vista! Eu tinha mais ou menos 12 anos quando vi
Um Corpo Que Cai umas 3 vezes seguidas, de tão maravilhado que fiquei. Foi inesquecível, uma experiência sensorial de verdade. Me senti incapacitado e me identifiquei muito com o pavor de alturas do detetive, me intriguei com as descobertas dele e me apavorei ao final. O
take da freira surgindo das sombras gelou minha espinha... Além de uma estória magnífica, baseada no romance
d'Entre les Morts, o filme é um mergulho nas profundezas de um homem, uma pessoa que se fragiliza e se torna obsessivo por causa de um amor, um herói imperfeito, que tem seus medos e defeitos. Um ser humano afinal de contas.
Já nos anos 90 foi feita a restauração e mais uma vez tivemos essa obra-prima nos cinemas. Quem não pôde vê-la na telona, não perca em DVD (para logicamente vê-lo em
widescreen) a edição restaurada de um dos maiores filmes de todos os tempos. Foi um filme que marcou minha vida e me apresentou a um grande diretor, de quem me tornei um grande admirador. E, desde a primeira vez, o filme logo foi incluído na minha extensa lista de clássicos do cinema...
Scottie: What's this doohickey?
Midge: It's a brassiere! You know about those things, you're a big boy now.
Scottie: I've never run across one like that.
Midge: It's brand new. Revolutionary up-lift: No shoulder straps, no back straps, but it does everything a brassiere should do. Works on the principle of the cantilevered bridge.
Scottie: It does?
Midge: An aircraft engineer down the penninsula designed it; he worked it out in his spare time.
Scottie: Kind of a hobby, a do-it-yourself kind of thing!
O TURISTA ACIDENTAL
Muita gente deve se perguntar porque utilizo
"Turista Acidental' como
nick neste
blog. Não é nenhum mistério. Tomei emprestado o nome do filme de
Lawrence Kasdan de 1988, baseado no romance de Anne Tyler, uma pequena e singela jóia do cinema. Eu nunca ouvira antes falar do livro. Só tive contato com ele alguns anos após ter visto o filme, e lá percebi o quão fiel foi sua adaptação para o cinema.
Era o reencontro nas telas de dois então astros,
William Hurt e
Kathleen Turner, sete anos após serem dirigidos pelo mesmo
Kasdan na releitura dos filmes
noir Corpos Ardentes. Mas a estória não parecia despertar muita simpatia e curiosidade nas pessoas. O público que dá dinheiro nas bilheterias é muito mais interessado em pancadarias, explosões, grande efeitos visuais do que na simples vida de pessoas comuns. Comuns?
Acompanhamos um período na vida de Macon Leary (
Hurt), um autor de guias de viagem para pessoas que vivem indo de um lugar pra outro por conta do trabalho. Sua teoria é tornar essas jornadas o mais simples possíveis, para que esses viajantes não tenham muito o que levar na bagagem nem estranhem hábitos e costumes de outras regiões, sentindo-se desta forma quase em casa. O filme começa com uma crise entre ele e sua esposa Sarah (
Kathleen Turner). Após algum tempo da morte repentina de seu único filho (que era um garoto sadio, ativo, inteligente, praticante de esportes...), o casal se estranha e a separação é iminente. Macon fica com a casa e o cachorro de estimação (um dos melhores atores do filme). Mas um acidente que o faz quebrar a perna o força a deixar seu cão numa espécie de
pet shop/hospital canino cuja dona é Muriel Pritchett (
Geena Davis, que acabou ganhando um Oscar de Atriz Coadjuvante pelo papel) e ir para a casa de seus irmãos. O convívio com Muriel acaba aproximando os dois e eles têm um caso. Leary agora se divide entre seu trabalho, seus irmãos e sua namorada com o filhinho doente e nada popular no colégio. O romance é estremecido quando Sarah ressurge e propõe uma reconciliação. Macon vive um dilema então.
É uma estória bem simples sobre pessoas aparentemente muito excêntricas. Macon, que se acha um cara normal, se vê rodeado pelos irmãos que não atendem ao telefone quando este toca, com medo de ser alguém dando uma má notícia; brincam de jogos envolvendo nomes de remédios; organizam a despensa por ordem alfabética e não têm vida social alguma; ou seja, um bando de loucos. Muriel é uma extravagância de mulher, usa roupas espalhafatosas, bem diferente da classe com que Sarah se veste. Daí vemos que ele, com aquela cara de tédio e espanto constante, aprende a ver em cada detalhe de cada uma dessas pessoas o que as torna tão normais como ele se considera. Visto de fora ele também é uma figura fora do comum, mas aprende que as diferenças comportamentais é que dão o
"tcham" nas pessoas e as torna únicas e, muitas vezes, essenciais em nossas vidas.
O filme não tem nenhum arrojo pirotécnico, mas é nas pequenas coisas que nos atrai. E vemos (e sentimos) tudo pelos olhos de Macon: a ternura com que ele observa Muriel cantando enquanto lava a louça, ou quando o filho desta, Robert, pega em sua mão num gesto de carência e conforto paterno, ou ainda quando ele se dá conta de que sua irmã Rose, uma solteirona que vive em função dos outros irmãos, pode despertar interesse romântico em seu amigo e editor Julian. Os olhos de
William Hurt... como ele estava num momento "iluminado"! Pra culminar, na cena final, quando ele, de dentro de um carro, observa Muriel esperando um táxi na calçada de uma rua de Paris, temos a conclusão de uma bela interpretação e de um filme magnífico. É clichê, mas vale citar:
um olhar vale mais do que mil palavras.
Nunca li nada a respeito, mas vejo este filme com uma parte de uma trilogia de
Lawrence Kasdan sobre o estudo do comportamento humano. Primeiro com
O Reencontro (algum dia falo dele aqui), de 1983, então com esse e depois, em 1991 com
Grand Canyon - Ansiedade de Uma Geração (outro que eu adoro). São filmes simples, sempre com um time de feras de atores, em que nada de extraordinário acontece, a não ser fatos rotineiros que acabam mudando as vidas de seus personagens. Este, além da indicação convertida em prêmio para
Geena Davis, também concorreu ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Trilha Sonora (ou Música como preferirem) para
John Williams (uma de suas composições mais simples e bonitas). Depois dele, ironicamente, o casal
Hurt e
Turner (ela hoje não lembra em nada o
sex symbol que foi nos anos 80, está enorme de gorda) parece ter entrado numa espécie de limbo cinematográfico, fazendo poucos filmes de destaque.
Esse desfile de gente estranha vivendo seu dia-a-dia em
O Turista Acidental torna esta comédia agridoce um carinhoso e simpático retrato de gente normal. Tendo contato com o universo de Macon Leary, vemos que todos nós temos um pouco de excentricidade, por mais que não percebamos. E que delícia é aprender a conviver com as diferenças dos outros e passar por coisas não planejadas anteriormente! Como no filme, as palavras e dicas que ele utiliza em seus guias de viagem acabam servindo também para sua vida. Essa é a essência de ser um
Turista Acidental: passar pela vida como um viajante, vivendo os dias aproveitando e tirando deles o que há de melhor, não planejando muita coisa porque, invariavelmente, acontecerá exatamente o oposto do que se imagina. Ou a vida de alguém é diferente? Será que ninguém nunca se apaixonou por alguém que parecia não ter nada a ver com você, com hábitos, gostos e costumes totalmente diferentes dos seus, ou se viu em situações aparentemente insólitas mas ao mesmo tempo agradabilíssimas, tendo experiências únicas em suas vidas, ou ainda nunca se sentiu como se fosse um alienígena na Terra abandonado ao nascer? O melhor é que, no final, após uma boa avaliação, vemos o quão importantes são essas passagens nessas nossas "viagens" do cotidiano, e como essas pessoas estranhas que aparecem em nossas vidas se tornam imprescindíveis para o nosso crescimento. E então nos damos conta que, nessas viagens como turistas acidentais, os estranhos éramos nós: os outros são absolutamente normais...
P.S.: uma das curiosidades do filme é que um de seus produtores é o ator
John Malkovich! Ele não tem mesmo cara de quem também se identificou bastante com Macon Leary?
Macon:
I'm beginning to think that maybe it's not just how much you love someone. Maybe what matters is who you are when you're with them.
POLTERGEIST - O FENÔMENO
Noutro dia mesmo eu estava pensando em como o ano de 1982 foi generoso para o cinema, me dando algumas das minhas obras favoritas. Filmes como
E.T. - O Extra-Terrestre,
Victor ou Vitória,
Tootsie,
A Escolha de Sofia,
Missing - Desaparecido: Um Grande Mistério,
O Mundo Segundo Garp,
Blade Runner - O Caçador de Andróides, e até mesmo
Tron - Uma Odisséia Eletrônica, que não é nenhuma obra-prima mas marcou época pela inovação nos efeitos visuais (pela primeira vez eram utilizados efeitos, hoje bem toscos, de computação gráfica). Desta lista faz parte também um filme de terror, um dos melhores de todos os tempos:
Poltergeist - O Fenêomeno.
A censura da época não o liberava para menores de 18 anos, mas eu vi logo depois do lançamento nos cinemas! Graças aos pirateiros, perdi algumas noites de sono. Me lembro de como fosse hoje: eu, na época com mais ou menos 10 anos e meus primos, o mais velho apenas três meses mais novo que eu, e o caçula então com 4 pra 5 anos. Fomos a uma festinha de aniversário de um amigo do meu primo no condomínio dele. Os pais do garoto tinham alguns filmes em casa e, depois de muito colocarem
Menina Veneno pra gente dançar, resolveram sossegar as crianças colocando-as em frente à TV para assistir
Poltergeist. Nos letreiros iniciais reconheci um nome:
Steven Spielberg, aquele que havia feito o filme do E.T. que eu havia visto anteriormente no cinema. Eu até já tinha ouvido falar bastante do filme. Uma garota que minha avó criava havia assistido no cinema e me disse quando chegou o quão apavorante era. Mas nenhuma dessas referências me fariam imaginar o que estava por vir.
Primeiro aquela mão que sai da TV, depois a árvore que quase engole o garoto vivo, pra logo depois a menininha sair voando para um closet em seu quarto e sumindo, daí então objetos rodando pela casa, aparições de fantasmas, ilusões de um cientista em frente a um espelho (onde sua pele começa a derreter com o calor de uma lâmpada), a mãe das crianças enfrentando um monstrão gigantesco e entrando numa porta de onde só sai luz pra sair no teto da sala debaixo com a menininha que havia sumido em seus braços. Acabou? Que nada! A gente mal respira e lá vai a mãe subindo (literalmente) pelas paredes, as crianças enfrentando um palhaço de brinquedo que toma vida, depois a mãe cai na piscina que está sendo construída e é cercada de esqueletos... Quando a coitada finalmente chega ao quarto onde estão as crianças, lá está uma super-garganta que tenta sugá-los. Mas daí chega o pai, coloca todo mundo dentro do carro e a casa é destruída, restando apenas um brilhinho de luz...
Pode parecer bobo narrado deste jeito. Não foi.
Poltergeist foi uma das experiências mais apavorantes que já tive com um filme. Hoje em dia é até ingênuo, mas na época era um espanto mesmo. Nunca antes foram mostrados num filme do gênero fantasmas e assombrações da forma como no filme de
Tobe Hooper - sim, esse é o diretor creditado. Mas todos sabem que além de escrever e produzir,
Spielberg meteu o bedelho em grande parte do filme. Aliás, seu universo está todo lá: a família de classe média com cachorro de estimação e carro enorme que vive num subúrbio (a idéia de subúrbio pros americanos é bem diferente da nossa. Imagine se a Barra da Tijuca tivesse só casas, sem prédio algum, todas elas com gramado na frente, uma garagem do lado e sem cerca ou muro. Nada de casas humildes, pagodes, barzinhos e similares), as referências ao cinema (como filmes que passam na TV da família Freeling, ou o universo de
Star Wars que povoa o quarto das crianças em posters e brinquedos), a parte melosa do "amor supera tudo"... ou seja, um filme típico de
Spielberg mesmo.
Poltergeist também pode ser uma leitura dos malefícios da televisão numa família - o que vem dela pode causar sua separação. De certa forma,
Spielberg a coloca como vilã mesmo. No final do filme, quando a família está longe de perigo e se hospeda num hotel, o último gesto do pai é colocar a TV do lado de fora do quarto.
O filme ainda nos apresentou a um personagem inesquecível: Tangina Barrons, a parapsicóloga baixinha e de voz fininha que anuncia "esta casa está limpa". Maldita! Ela estava enganada, enganou os Freeling e a nós também! Mas grande parte do sucesso do filme se deve a ela. Depois dele, houve mais duas continuações (sem
Spielberg na parada) que não chegaram aos pés deste. O público adorou, a crítica também. No Oscar, teve três indicações, para Melhor Trilha Sonora (de
Jerry Goldsmith, uma preciosidade), Melhores Efeitos Visuais e Melhor Edição Sonora. Ironicamente, perdeu os três para o
E.T. do mesmo
Spielberg.
Certamente hoje os efeitos estão ultrapassados e muita gente nem sequer se incomoda com os espectros que aparecem pelo filme (uma das minhas cenas favoritas é aquela em que um fantasmão desce a escada da casa: prestem atenção na beleza dos efeitos, na fotografia e na música). Depois desta, revi o filme várias vezes (desisti de contar por volta de 1988, quando já tinha visto umas 25 vezes). Mas aquele dia da festinha foi inesquecível e também o início de um ciclo temporário de terror em família. Meu primo mais novo ficou morrendo de medo de ir ao banheiro sozinho. O que tinha quase minha idade não se manifestou muito. E eu não conseguia tirar aquelas imagens da cabeça, e, por algumas noites, dormi de costas pra TV do meu quarto com medo de alguma mão espectral que pudesse sair dela...
Steve:
Tomorrow I'm going to call someone.
Diane:
Like who? I looked in the Yellow Pages. "Furniture Movers" we've got; "Strange Phenomenon," there's no listing.
FANTASIA
Muitos dos que me conhecem sabem do meu fascínio pelas trilhas sonoras dos filmes. Vocês já devem ter percebido que sempre cito algumas delas e seus compositores nos
posts deste
blog:
"tal trilha de Fulano é maravilhosa" e coisas do gênero... Aliás, este é um termo que eu li ser errado. Foi no livro
O Oscar e Eu do Rubens Ewald Filho, no qual ele comenta que esse termo foi incorporado erroneamente em nosso linguajar. O certo mesmo é música (
score) já que a dita trilha sonora (
soundtrack) se refere a todo o som dos filmes. A gente até aprende isso na faculdade, mas acaba falando como a maioria por motivos de força maior (e desde que me entendo por gente só conheço a música de cinema por esse termo).
Por motivos de idade também (sou velho mas nem tanto), só assisti
Fantasia de
Walt Disney lá pelos idos de 1983, em vídeo pirata. O filme foi um projeto ambicioso deste sagitariano (êeeehhhh!): fazer diversos episódios em animação, utilizando como pano de fundo apenas músicas clássicas, sem qualquer diálogo. E muitas delas com conceitos completamente abstratos. Uma ousadia na época (1940) e até hoje. Mas ainda assim uma experiência única.
Meu primeiro contato com o filme foi numa sessão da
Disneylândia, aquele programa que passava na Globo, algumas vezes aos sábados, outras nos domingos. De vez em quando passavam nele um trecho do filme. Se não me falha a memória, o que me marcou primeiro foi aquele dos cogumelinhos dançando ao som de Tchaikovsky e sua
Chinese Dance, trecho da suíte
Quebra-Nozes e, lógico, a marca-registrada do filme:
Mickey Mouse incorporando o
Aprendiz de Feiticeiro. Na época eu pegava filmes no Vídeo-Clube do Brasil, um conceito que era muito comum naqueles tempos de pirataria mas que caiu em desuso no final da década de 80, e, ao ver na chapeira (para os que não pegaram esse tempo, chapeira era um tipo de arquivinho que ficava preso nas paredes com diversas fichinhas dos filmes disponíveis) o
Fantasia, não titubeei e o peguei. Estranhei muito no começo o fato de não haver diálogo algum no desenho, e alguns dos episódios nem estória propriamente dita tinham (como logo no início, a
Tocata e Fuga, nada mais do que uma explosão de luz e cores). Mas fui me envolvendo mais e mais com aqueles delírios visuais, como no já citado
Quebra-Nozes, onde saltitam pela tela fadinhas, peixes, cogumelos e flores dançantes; na
Sagração da Primavera, uma leitura sobre a origem da vida na Terra e o apogeu e declínio da era dos dinossauros, culminando no seu extermínio; na
Dança das Horas, o mais cômico dos episódios com o irresistível balé de elefoas, avestruzes, crocodilos e uma diva-hipopótamo; o pentelho do Mickey e sua confusão com vassouras encantadas; a
Sinfonia Nº 6 (
Pastoral) um poético e divertido desfile de figuras da mitologia grega; e finalizando com almas penadas dançando ao redor de um gigantesco demônio em
Noite no Monte Calvo seguido de uma procissão (o mais chatinho e descartável episódio) ao som da
Ave Maria.
Um filme experimental, sem dúvida.
Disney e seus desenhistas aproveitaram para executar exercícios plásticos, experimentando texturas, reflexos, movimentos, efeitos de iluminação e profundidade, técnicas diferentes de animação, todos perfeitamente sincronizados à música. Seu intuito era, de certa forma, popularizar a música clássica e torná-la acessível a grandes platéias, principalmente às crianças. Não foi muito feliz, o filme foi um grande fracasso. Mas foi o responsável por um grande avanço no cinema: a utilização, pela primeira vez, do som estereofônico (na época batizado
Fantasound). O filme só foi redescoberto na década de 60, nas sessões onde
hippies entorpecidos pela onda lisérgica o tornaram um
cult e fizeram com que os críticos o revissem e dessem a ele seu devido valor.
Hoje considerado um dos grandes clássicos de
Disney, muito provavelmente
Fantasia não tenha atendido por completo o desejo de seu criador, o de popularizar a música clássica. Muitos o consideram chato e tedioso. Mas pelo menos a mim ele tocou. Não que eu tenha me tornado um entusiasta da música, mas aprendi tanto a admirar um pouco mais a este tipo de composição como também a prestar atenção no quão importante e bela pode se tornar uma cena de um filme aliada a uma obra musical. O Dan reclama sempre que eu não sei escutar música como devia, me concentrando nela, abstraindo tudo que esteja ao meu redor. Uma parte desta culpa é de
Disney, que me ensinou a ter a música sempre como um fundo, um complemento para alguma ação, seja ela na tela ou na vida real...
P.S.: seguindo a idéia de
Disney de fazer de
Fantasia uma obra aberta, que fosse se desenvolvendo com o passar dos anos, no final do século passado (como se isso fosse há muito tempo...) foi lançado
Fantasia 2000, que os críticos consideram inferior ao original. Discordo veementemente. O filme é uma maravilha, apresenta técnicas novas de animação e continua com o mesmo charme do anterior. Tem trechos inesquecíveis, como
Rhapsody in Blue de Gershwin, uma crônica do período da depressão bastante estilizado e charmoso; as baleias voadoras de
Pinheiros de Roma; o Pato Donald como assistente de Noé ao som de
Pompa e Circuntância; e o lindo final com a
Firebird Suite, entre